Evitando efeitos indesejados de se acreditar em
alguém
Uma vez, adolescente, eu jogava bola no pátio do colégio, que
tinha ao lado algumas salas de aulas para alunos do ensino fundamental. Algo me
chamou a atenção para o lado das salas e me virei a tempo de ver uma professora
gritando com um menino com toda a entrega possível: “BURRO!!!”.
Que possíveis
impactos esse breve acontecimento pode ter proporcionado no resto da vida do
menino, ou pelo menos no trabalho que ele pode ter tido para se livrar dessa
influência?
O fato é que provavelmente ninguém escapa de ser de vez em
quando influenciado negativamente por outra pessoa que tem credibilidade para
ela. Se isso aconteceu ou pode acontecer com você, este artigo lhe dará algumas opções para interpretar a comunicação do outro
e para pensar melhor sobre o que houve, e assim ter mais e melhores opções de
resposta. Nossa estratégia é a
análise ou segmentação em aspectos, com sugestão de opções para cada
um. A frase de referência será “VOCÊ É MUITO BURRO!!!”, e as opções
apresentadas naturalmente se
aplicam a outros rótulos e classificações cotidianamente aplicados.
Significado
Símbolos, como por exemplo palavras, a princípio são somente
imagens, e só têm utilidade quando alguém os interpreta, atribuindo-lhes
significado. O primeiro aspecto da nossa frase diz respeito ao seu
significado. “Burro” é uma palavra usada para resumir, metaforicamente, um ou
alguns comportamentos. Temos uma tendência cultural para buscar jeitos de falar
que descrevam algo de forma mais sintética, até porque a realidade é muito rica
para ser totalmente descrita. Por exemplo, lembre-se de um por-do-sol
particularmente bonito que você presenciou. Agora tente descrevê-lo em palavras.
Mas fácil usar um adjetivo, não? Talvez “Maravilhoso...”, seguido de um
suspiro...
Bem, então “burro” é uma tentativa de descrição resumida,
normalmente significando que alguém demonstrou incapacidade para fazer algo.
Isso pode se referir ao comportamento recente ou também a um padrão de
comportamentos semelhantes. Em geral esperamos três ou mais experiências para
afirmar que alguém é alguma coisa: ninguém é “chato” ou
“legal”, “mal-educado” ou “bem-educado”, fazendo o que faz uma vez só, no máximo
está, exceto
talvez quando há uma carga emocional mais forte envolvida. Neste caso, podemos
carimbar o rótulo após uma única experiência.
Em termos de significado, “burro” é portanto uma palavra muito
pobre, porque, como vimos, refere-se apenas a um comportamento ou a alguns comportamentos semelhantes. Ou seja, em relação à toda a experiência
da pessoa, a palavra resume alguns comportamentos e induz um foco muito
restrito, deixando de lado tudo que a pessoa sabe e sabe fazer. Esse foco
restrito é característica de percepção e pensamento lineares e focados: eliminamos ou
apagamos um monte de coisas e concentramos o “holofote” - nossa atenção - em uma
diminuta parte dentre todas as possibilidades existentes. Se você daí concluir
que a pessoa que chama a outra de “burro” é que é burra, pode até parecer
pertinente, mas você vai estar fazendo a mesma coisa que ela...
Opções
1) Note que a pessoa está tentando resumir vários
comportamentos em uma palavra, e nem sempre estará escolhendo a melhor.
2) Perceba que a palavra usada está restringindo o foco e
eliminando zilhões de outras coisas.
3) Se precisar restaurar o equilíbrio,
lembre-se de algumas coisas que você sabe fazer bem.
Não-verbal
Um outro aspecto da fala é a parte não-verbal: como é
expressa. Quando falamos, temos ritmo, entonação, volume, timbre e outras
variáveis, incluindo a "configuração" corporal. O não-verbal é tão parte integrante do
significado que pode até invertê-lo completamente: se alguém lhe disser um certo
palavrão com um certo tom de voz, você pode até entendê-lo como um elogio ou
demonstração de estima. Há alguns anos, uma atriz em um comercial na TV
chamou-nos a todos de “tolinhos” e nós até gostamos, de tão carinhoso!
Opções
4) Preste atenção aos aspectos não-verbais da comunicação:
fisiologia, expressão e formatação da comunicação.
Embora consideremos o não-verbal na interpretação de falas,
nosso foco costuma ficar mais no conteúdo, e se você coscientemente ficar prestando
atenção ao que é não-verbal, pode não conseguir, sem treino, entender o
que está sendo falado. Experimente praticar, por exemplo, assistir TV prestando
atenção ao que as pessoas fazem como o rosto quando se comunicam: franzem testa,
mexem olhos, entortam boca, gesticulam. Se alguém estiver falando enfaticamente
com você, prestar atenção no rosto dela tem potencial para mudar completamente sua experiência.
Claro, talvez você precise treinar um pouco antes que consiga fazer isso
fluentemente.
Credibilidade do
emissor e da fala
Alguém lhe falou a frase acima, ou similar, em um tom de voz
bastante enfático, e você reagiu com alguma emoção bem limitante. Podemos chamar
a isso de “comprar” a comunicação do outro: veja-o como “vendedor” de idéias, e
você o potencial cliente, sendo o produto a frase. Mas você só compra uma
comunicação de uma pessoa se ela tiver um mínimo de credibilidade junto a você.
Se eu lhe disser “Você é muito simpático(a)!”, você vai acreditar? Já que não
lhe conheço, que credibilidade teria essa fala junto a
você para afirmar isso? Elogios sem fundamentos são normalmente rotulados de
puxa-saquismo, hipocrisia e falsidade, coisa de quem quer apenas obter algo para
si.
Assim, o impacto da comunicação depende da
credibilidade do emissor junto ao receptor.
Note também que os aspectos não-verbais, vistos acima, podem fazer parte da
credibilidade: imagine um policial de filme dizendo para o bandido “Freeze!!”
com uma voz meiga e o corpo relaxado. Diga a palavra sem os pontos de
exclamação: “Freeze”. Diferente?
A compatibilidade entre comportamento, expressão e conteúdo da
comunicação é chamada de congruência. Muitos políticos, entre outros,
sabem da importância da congruência para a credibilidade!
Opções
5) Em geral atribuímos credibilidade a uma pessoa como um
todo. Se você considerar que ninguém sabe tudo, abrirá a porta para
questionamentos: o quanto ela sabe de você? Qual é
a credibilidade dela na situação e para o tema em questão? Melhor ainda, qual é a
credibilidade da fala específica?
Verbo e tempo verbal
Note que a frase de referência usa o verbo
ser. A frase não foi “Você foi burro” nem “Você está sendo burro” nem “Você está
burro hoje/agora”. O verbo ser descreve algo como uma característica permanente. O
problema aqui é usar um verbo adotado para descrever características estruturais
imutáveis para fazer descrições comportamentais, o que pode ser extremamente
inapropriado como descrição. É apropriado dizer que somos seres humanos e que um
certo aparelho é um computador, mas dizer que sou tímido ou chato não é, porque
se algo é comportamental, ele pode ser mudado a qualquer momento. Se eu estou
sendo chato e fico sabendo disso, posso me ajustar e deixar
de estar chato. Posso ter sido incompetente para fazer algo, aprender com o que
aconteceu e agir melhor da próxima vez.
Por outro lado, a forma verbal usada pela pessoa é uma descrição de
parte da sua experiência interna, e deve representar o aspecto mais importante
do que está acontecendo lá. Se ela usou o verbo ser, talvez já tenha criado uma
impressão que tende a permanecer.
Opções
6) Observe qual foi o verbo usado e avalie se é
apropriado.
7) Observe qual foi o tempo verbal usado e avalie se é
apropriado.
Intenções
Via de regra não damos um passo sequer sem ter alguma intenção,
seja ir até a cozinha, seja fazer uma viagem, seja andar para lá e para cá. Da
mesma forma, toda comunicação tem um propósito maior. Compreender uma situação
também no nível das intenções pode ajudar na percepção de melhores opções. Por
exemplo, o que a outra pessoa está pretendendo com o que disse? Expressar-se,
desabafar, ferir? A outra pode estar querendo que
você se sinta humilhado, talvez com um elemento adicional de punição. Ou pode
estar simplesmente expressando uma emoção forte, e assim que conseguir, vai
voltar ao normal. E você, ao
responder de uma certa maneira e não de outra? Retribuir, ferir de volta,
manifestar sua indignação? Retrucar para não se sentir diminuído?
Saber a intenção do outro - ou pelo menos deduzi-la com boa
probabilidade - lhe traz mais opções. Por exempo, em reuniões, se você descobre
que a intenção de alguém é somente impor suas idéias e não colaborar com os
objetivos do grupo, concorde com ela de forma crível e ela se cala, porque
acredita que atingiu seu objetivo.
Opções
8) Observe a situação sob a perspectiva de intenções dos
envolvidos.
9) Tenha claras suas intenções na situação e, se possível,
escolha melhores.
Como incorporar as novas opções
Por vezes compreendemos algo e esse algo fica imediatamente
disponível para o usarmos. Outras vezes isso não ocorre, e, em uma situação
prática, velhos hábitos podem
ser ativados antes que nos lembremos das novas e melhores opções. É preciso
então trabalhar um pouco.
Se estiver interessado em introjetar uma ou mais das opções
sugeridas, leve em conta que aprender é bastante diferente de usar o
aprendizado. Quando lidamos com o que é novo, precisamos reduzir o ritmo para
darmos conta de processá-lo. Também é útil reduzir o foco, trabalhar uma idéia
de cada vez, para depois, quando as idéias parciais estiverem melhor dominadas,
podermos integrá-las e combiná-las em estratégias mais elaboradas.
Assim, se achar que é preciso, reserve alguns minutos por dia
para praticar uma opção de cada vez, eventualmente fazendo simulações (ensaios
mentais) e naturalmente as novas opções serão integradas à sua espontaneidade.