English                Indique este site        
 

BOLETIM

Saiba as novidades do site por e-mail e acesse arquivos exclusivos.

E-mail:

 

INTELIGÊNCIA EMOCIONAL

Modelos de intervenção emocional

Assumindo as rédeas das emoções

De vez em quando você sente emoções ou sentimentos que podem não ser lá agradáveis, como medo e insegurança, experiências que você possivelmente gostaria de mudar. E tendo um objetivo de mudar, o que você faria? Talvez você nem se dê ao trabalho de estabelecer tal objetivo porque não acredita que seja possível ou não sabe como. Bem, pode ser que você não acredite que seja possível porque não sabe - comprovadamente - como.

E se você soubesse como fazer para intervir em emoções indesejadas ou limitantes, será que soaria mais plausível? Se esse como envolvesse ler um livro de 400 ou 500 páginas cheias de conceitos e descrições que lhe soam algo abstratos e fora de seu alcance, concordamos que pareceria difícil. Vamos então ao ponto: a proposta aqui é apresentar algumas formas de intervir em suas emoções, de maneira simples, prática e objetiva, que envolvam fazer coisas que você já sabe fazer. Esperamos com isso não só lhe dar opções para lidar com certas situações nas quais você não as tem, como também, quem sabe, lhe proporcionar um daqueles excitantes momentos em que você descobre que algo que não parecia agora se tornou possível.

Para facilitar, vamos iniciar com uma pequena preparação, na forma de auto-conhecimento estrutural.

 

Uma sua capacidade inata

Modelo 1: Satisfação

Modelo 2: Medo

Modelo 3: Insegurança

Dicas

Possíveis obstáculos

Conclusão e perspectivas

 

Uma sua capacidade inata

Imagine uma praia, com areias brancas. É de manhã bem cedo, e você está próximo à água, olhando o horizonte, ouvindo as ondas, seus pés tocando a areia úmida. Ali perto, um aparelho de som toca uma de suas músicas preferidas. As águas de uma pequena onda que acabou de quebrar envolvem seus pés e, ao voltarem para o mar, retiram um pouco da areia ao redor e sob os pés, que afundam ligeiramente. Você então olha à esquerda, e vê na areia um caranguejo. Olhando de novo, não é um caranguejo, é um siri, andando daquele jeito meio de lado. Você resolve nadar. Caminha á frente, pula na água e nota com estranheza que ela está morna, e não fria como você esperava.  Satisfeito, resolve ir para a casa em que está hospedado, que é um belo sobrado azul e branco. Nada mais um pouco e chega na varanda da casa.

Estranhou? Explico. O objetivo do parágrafo acima é mostrar que você tem uma capacidade extraordinária, natural e muito útil de visualizar: gerar imagens em seu espaço mental e olhar para elas. Você foi construindo a imagem conforme solicitado e imaginou água, areia, siri e quem sabe até enxergou a casa no meio do mar. "Visualizar" é uma palavra incompleta para essa experiência: na verdade você ouviu coisas e talvez tenha até tenho tido sensações. E muito provavelmente fez isso com fluência e naturalidade, sem por exemplo parar para pensar algo do tipo “Como é mesmo que eu imagino uma praia?”

Na verdade, isso vai um pouco além de uma capacidade. O próprio ato de interpretar as palavras já gera os cenários e cenas mentais. Por exemplo, pense em Gisele Bündchen. Pensando bem, eu nem preciso dizer para você pensar, basta pronunciar “Gisele Bünd...” que você já pensa nela. E tem mais: não pense no Tom Cruise! Até dizendo para não fazer você o faz! Claro, as exceções ocorrem quando você não sabe o significado de alguma palavra ou expressão.

O propósito aqui é mostrar que você não só pode visualizar, como, quando quiser, pode usar a linguagem como recurso para apoiar a visualização, que foi o que nós o conduzimos a fazer. Nos modelos descritos a seguir, a visualização é básica e você poderá visualizar qualquer coisa que conseguir descrever com a precisão adequada, pensando ou falando.

(A propósito, da próxima vez que você ouvir sobre o poder das palavras, já conhece no mínimo um - há outros).

Um último teste: não pense agora em uma de suas comidas preferidas e não tenha água na boca, pense na pessoa de quem mais gosta, lhe fazendo um cafuné em câmera leeeennnntaaaa...

 

Modelo 1: Satisfação

“Eu tinha uma insatisfação crônica, mal me lembrava de momentos em que pude usufruir plenamente de um sentimento de satisfação. Um dia, uma pergunta simples me deu a pista para lidar com o problema: com o que estou satisfeito e com o que não estou satisfeito? Dediquei então alguns minutos a buscar elementos e aspectos da minha vida e avaliar a satisfação para cada um. Foi muito interessante: descobri que, no trabalho, estava satisfeito com o salário, o horário e as atividades, com um senão em relacionamento com uma certa pessoa.  Com relação ao carro, estava satisfeito com o modelo, o conforto, a potência e o valor pago, e tinha apenas dois defeitos a resolver (o que fiz em questão de duas semanas). E assim fiz para esposa, filhos, lazer, computador, tudo que consegui pensar.

Foi interessante também que minha mente meio que começou a fazer avaliações de satisfação sozinha. Surpreendi-me em certos momentos, por exemplo, verificando que estava satisfeito com minhas roupas e sapatos e que a cozinha estava legal, exceto pela geladeira que eu queria trocar. Pensando bem, era só a aparência da geladeira, porque apesar de velha ela estava funcionando bem.”

Comentários

O protagonista fazia a avaliação de satisfação como um todo, e as exceções “contaminavam” o todo assim como uma laranja passada estraga o suco de 10 laranjas boas. Em outras palavras, se não fosse tudo perfeito, o todo não era perfeito. Segmentar – “abrir” - as percepções, e portanto fazer  avaliações mais localizadas, permitiu não só uma experiência melhor de satisfação como a identificação das áreas a trabalhar para obter maior satisfação global. Ou seja, os elementos ou aspectos que atendem aos critérios tornam-se fontes estáveis de satisfação; os demais tornam-se objetos de decisão, seja de aceitação ou de ação.

Um possível enriquecimento desse modelo é ter níveis de satisfação, expressos por exemplo em percentual: “Estou 80% satisfeito com meu carro” ou “Estou 90% satisfeito com minha capacidade de perdoar”. Não sentir satisfação completa aponta para “abrir” o objeto de avaliação e investigar fontes específicas de insatisfação. No caso de um carro, por exemplo, poderia ser “o som” e “aquele ruído diferente que escuto quando passo em quebra-molas”.

Outras aplicações

- Avaliação do grau de felicidade. Ao invés de “você” se sentir feliz, abrir a vida em elementos e aspectos e avaliar a felicidade para cada um. Aqui também as áreas menos felizes podem ser trabalhadas individualmente.

- Avaliação de paz. Aqui pode ser interessante um primeiro nível de estruturação em paz interior e exterior.

 

Modelo 2: Medo

Quando adolescente, fui mordido na boca por um cachorro grande. Não fiquei traumatizado, mas passei a respeitar bastante os cachorros maiores. Não obstante, tinha sensações de medo, às vezes, que me incomodavam. Um belo dia, resolvi trabalhar esse medo. Como estratégia, resolvi reviver uma cena do tempo da faculdade, em que peguei o ônibus errado e acabei parando em um 'mato com cachorro' : à minha frente, no mato quase escuro, um cachorro grande e preto latia ferozmente – para mim!' Na ocasião não houve nada, porque o dono do cachorro apareceu, mas achei que a cena serviria. Acomodei-me em uma posição confortável e mentalmente revi a cena, procurando alguma coisa, algum detalhe interessante. Estava eu parado, o cachorro latindo. Resolvi então explorar mais a cena, e imaginei que o cachorro avançava. Pude perceber então que meu 'eu' na imagem não fazia nada – estava literalmente paralisado, exceto pelos tremores. 'E se ele fizesse alguma coisa?', pensei. Lembrei-me de uma piada de safári e leão e imaginei o meu duplo aparando o cachorro. Pareceu funcionar, mandei o cachorro longe. Rebobinei e veio a idéia de parar a cena pouco antes do cachorro me atingir e então pus-me a buscar alternativas, algumas até bem irreais: esquivar-me, morder o bicho, saltar para trás. No final, o mais interessante não foi me sair bem da situação, mas sim perceber que o meu medo de cachorro estava relacionado com meu duplo, a imagem mental de mim mesmo, estar paralisada, sem ação. Quando ele passou a ter opções de ação, a sensação de medo foi embora. Não sei precisamente o que faria em uma situação real, mas agora pelo menos me vêm opções de ação e sei que faria algo diferente de ficar paralisado.”

Comentários

O protagonista usa como referência de comportamentos uma imagem mental de si mesmo: se a imagem tem opções, ele também as tem. Se a imagem sabe fazer algo, provavelmente ele conseguirá fazer o algo também. O problema ocorreu porque ele não tinha consciência disso; ao conscientizar-se, teve mais opções na situação.

O que ele fez é chamado (principalmente) de ensaio mental, uma técnica usada por exemplo por pilotos de caças e ginastas.

Outras aplicações

- Medo de dirigir automóveis, por trauma ou outra razão. Pesquise situações de risco sem saída em que pode estar se imaginando e busque opções para lidar com elas. Você pode enriquecer a prática treinando no próprio automóvel parado.

- Medo de altura. Verifique se você se imagina caindo com muito realismo. Uma boa opção para uma situação de altura é verificar se seus pés estão firmes e se seu corpo em geral está seguro. Se puder, e já que é fantasia, experimente deixar o filme prosseguir devagar, enquanto você procura alguma forma de cair que salve sua vida.

- Pesadelos recorrentes. Um colega nosso usou essa técnica para livrar-se de pesadelos com leões e aranhas. Veja Um fim a treze anos de pesadelos.

 

Modelo 3: Insegurança

“Após vários anos sem entrar em uma sala de aula, isso iria acontecer de novo. Eu me sentia muito mais preparado do que antes, afinal tinha aprendido muito desde então sobre planejamento de ensino e didática. No entanto, aquele incômodo continuava lá, uma sensação de insegurança, de que algo iria sair errado. Isso persistiu por vários dias, até que tive uma bela inspiração. Como faço às vezes para buscar informação, procurei ver o que estava se passando no meu espaço mental, e, embora não visse com clareza, pude notar que a insegurança estava associada a zonas escuras do meu plano de aula. A brilhante conclusão foi de que a insegurança era uma informação a respeito de minha preparação: onde estava escuro o planejamento precisava ser mais trabalhado! Imediatamente vi que não precisava lutar contra aquela emoção e passei a usá-la como referência: onde estava escuro ou nebuloso era justamente o ponto em que eu precisava investir. A partir daí a insegurança não só não me incomodou mais como me guiou, e no fim ministrei um curso que teve 95% de feedbacks dos tipos 'atendeu' ou 'superou as expectativas'.”

Comentários

O protagonista fez uma ressignificação: o que era um sentimento incômodo passou a ser uma indicação, uma informação, que ele usou para enriquecer a preparação.

Outras aplicações

- Ciúmes, do tipo romântico. Podem ser uma indicação de risco, de perigo de perda de um relacionamento de valor. Definir ações para nutrir, harmonizar e enriquecer o relacionamento vão atenuar esse processo. Bem, conforme o perfil da outra pessoa, talvez sejam necessárias ações para satisfação de certas necessidades...

- Incerteza, insegurança a respeito da qualidade de um produto, como um texto, artigo ou relatório. Por vezes pode haver uma percepção subconsciente de algum aspecto que precisa ser melhor trabalhado. Pedir a outra pessoa uma leitura crítica pode ajudar.

 

Dicas

Algumas sugestões para enriquecer suas ações de intervenção emocional:

- O uso regular de um procedimento faz com que ele seja executado cada vez mais fluentemente, como qualquer habilidade. Experiência e feedback também ajudam a mostrar o que é mais apropriado e a enriquecer a habilidade com mais opções e variações.

- As pessoas e situações são diferentes. Alguém pode lhe mostrar caminhos, mas há decisões que só podem ser tomadas no momento. Isso é semelhante a dirigir: você tem um destino e um caminho para chegar lá, mas o quanto vai acelerar ou frear, quando vai girar o volante e outras escolhas só podem ser feitas no momento presente, por quem está lá, tem as informações e está dirigindo. Você é a pessoa mais próxima de si mesmo e portanto tem a melhor perspectiva e as melhores informações, o que o torna a única pessoa que pode deliberar o melhor a fazer em cada momento.

- No texto dissemos que você tem uma capacidade natural de visualização. Há uma outra perspectiva que pode estruturar melhor esse processo. A base é considerar que sua mente é que gera as imagens e significados, em resposta ao que você pensa ou fala. Assim, a visualização pode ser vista como tendo três passos: você expressa o que quer visualizar, as imagens e outros elementos do significado são gerados pela mente no seu espaço mental e você então direciona sua percepção e atenção para o local do espaço mental onde estão as imagens. Isso lembra você e o computador: você executa um controle, como um botão, link ou item de menu, e a resposta aparece no monitor. Você controla, o computador processa e lhe responde.

Essa perspectiva abre a possibilidade, por exemplo, de você expressar algo que queira visualizar e veja o que foi gerado, avaliar e, se não for exatamente o que você pretendia, já que a linguagem tem uma imprecisão inerente, reformular e ajustar a forma como descreve o que quer. Uma espécie de diálogo construtivo.

 

Possíveis obstáculos

Se você quiser um caminho seguro para gerar emoções como frustração e desapontamento, basta ter e manter expectativas de que tudo vai sair conforme imaginado e planejado. A realidade não é bem assim, como o deve demonstrar sua própria experiência. Seguem alguns possíveis obstáculos no caminho da intervenção emocional.

Objetivos em andamento - Objetivos são um dos pilares da inteligência: experimente fazer de conta que não tem nenhum e veja que provavelmente ficará estático, paralisado. Assim, quer você esteja consciente disso ou não, e está agindo, você tem objetivos. O que está acontecendo de indesejado pode estar associado a um objetivo, sendo usado para uma finalidade. Por exemplo, uma pessoa pode ficar doente; ela não quer isso, mas usa o fato como justificativa para não ir trabalhar. A condição dela então estará sendo usada para algo que ela quer, e isso pode reduzir o impulso de agir para a cura.

Você pode saber se uma ação de intervenção emocional tem um outro objetivo como obstáculo se tiver uma sensação de conflito, de resistência interior à mudança.

Inflexibilidade de convicções – É importante termos bem estabelecido para nós mesmos como é e como funcionam o mundo, as pessoas e nós mesmos; usamos essas referências - crenças - por exemplo para gerar opções e fazer escolhas. O obstáculo é quando temos crenças firmes mas que não correspondem precisamente à realidade, ou a realidade na qual as crenças foram geradas mudou. Uma evidência de que isso está acontecendo é a negação das exceções às crenças: você presencia algum fato e diz ou pensa “Mas não é possível” ou “Não acredito”; uma experiência com potencial para proporcionar evolução pode ser perdida.

Se uma idéia para intervenção emocional surgir em sua mente após ler este artigo e você observar alguma resistência, isso pode estar ocorrendo devido a uma crença de que não é possível ou a ausência de uma crença de que é possível.

Expectativa prematura de resultados – Um dos grandes obstáculos potenciais ao aprendizado é querer obter resultados antes de dominar o processo que o levará até eles ou enquanto se aprende o processo. Um exemplo trivial seria esperar digitar um texto no computador rapidamente sem ter treinamento em digitação. Dominar o processo – digitar – é que conduzirá ao resultado - o texto pronto logo. Assim, nas primeiras vezes - e isso se aplica a muitas outras coisas que você faz - mantenha o foco em aprender o processo e progressivamente experimente, domine e enriqueça o processo que os resultados virão naturalmente, como conseqüência. Algo como primeiro aprender a plantar e a colher, depois plantar e então colher.

 

Conclusão e perspectivas

Os modelos aqui apresentados tem outra coisa em comum além de serem destinados a intervenções emocionais: os três partem de um espaço-problema. Este não é único enfoque; outro é o de objetivo. Mesmo que você não precise de algo, pode proativamente estabelecer como objetivo que algo relacionado a emoções vai acontecer em sua vida. Por exemplo, você pode estar satisfeito com algo e deliberar que ficará ainda mais satisfeito. Isso e muito mais é possível e, como espero ter demonstrado, não é necessariamente difícil; o ponto mais importante não é a complexidade, mas sim você saber o que quer e o que fazer. Em síntese, ter destino e caminho.

Virgílio Vasconcelos Vilela

Editor deste site

Veja também:

Energização: Como superar limites presumidos

Indique esta página para um amigo

 

 

 

Copyright 2002- Virgílio Vasconcelos Vilela

Permitida a reprodução desde que citados o autor e a fonte (obséquio dar conhecimento)