De vez em quando você sente emoções ou sentimentos que
podem não ser lá agradáveis, como medo e insegurança, experiências que
você possivelmente gostaria de mudar. E tendo um objetivo de mudar, o
que você faria? Talvez você nem se dê ao trabalho de estabelecer tal
objetivo porque não acredita que seja possível ou não sabe como. Bem,
pode ser que você não acredite que seja possível porque não sabe -
comprovadamente - como.
E se você
soubesse como fazer para intervir em emoções indesejadas ou
limitantes, será que soaria mais plausível? Se esse
como envolvesse ler um livro de 400 ou 500 páginas cheias de
conceitos e descrições que lhe soam algo abstratos e fora de seu
alcance, concordamos que pareceria difícil. Vamos então ao ponto: a
proposta aqui é apresentar algumas formas de intervir em suas emoções,
de maneira simples, prática e objetiva, que envolvam fazer coisas que você já sabe
fazer. Esperamos com isso não só lhe dar opções para lidar com certas
situações nas quais você não as tem, como também, quem sabe, lhe
proporcionar um daqueles excitantes momentos em que você descobre que
algo que não parecia agora se tornou possível.
Para facilitar,
vamos iniciar com uma pequena preparação, na forma de auto-conhecimento
estrutural.
Imagine uma praia,
com areias brancas. É de manhã bem cedo, e você está próximo à água,
olhando o horizonte, ouvindo as ondas, seus pés tocando a areia úmida.
Ali perto, um aparelho de som toca uma de suas músicas preferidas. As
águas de uma pequena onda que acabou de quebrar envolvem seus pés e, ao
voltarem para o mar, retiram um pouco da areia ao redor e sob os pés,
que afundam ligeiramente. Você então olha à esquerda, e vê na areia um caranguejo. Olhando de novo, não é um
caranguejo, é um siri, andando daquele jeito meio de lado. Você
resolve nadar. Caminha á frente, pula na água e nota com estranheza que ela está morna,
e não fria como você esperava. Satisfeito, resolve ir para a casa
em que está hospedado, que é um belo sobrado azul e branco.
Nada mais um pouco e chega na varanda da casa.
Estranhou? Explico.
O objetivo do parágrafo acima é mostrar que você tem uma capacidade
extraordinária, natural e muito útil de visualizar: gerar imagens em seu espaço mental e olhar para
elas. Você foi construindo a imagem conforme solicitado
e imaginou água, areia, siri e quem sabe até enxergou a casa no meio do
mar. "Visualizar" é uma palavra incompleta para essa experiência: na
verdade você ouviu coisas e talvez tenha até tenho tido sensações. E muito provavelmente fez isso com
fluência e naturalidade, sem por exemplo parar para pensar algo do tipo
“Como é mesmo que eu imagino uma praia?”
Na verdade, isso
vai um pouco além de uma capacidade. O próprio ato de interpretar as palavras já
gera os cenários e cenas mentais. Por exemplo, pense em Gisele Bündchen.
Pensando bem, eu nem preciso dizer para você pensar, basta pronunciar
“Gisele Bünd...” que você já pensa nela. E tem mais: não pense no Tom
Cruise! Até dizendo para não fazer você o faz! Claro, as exceções
ocorrem quando você não sabe o significado de alguma palavra ou
expressão.
O propósito aqui é
mostrar que você não só pode visualizar, como, quando quiser, pode usar a linguagem
como recurso para apoiar a visualização, que foi o que nós o conduzimos
a fazer. Nos
modelos descritos a seguir, a visualização é básica e você poderá
visualizar qualquer coisa que conseguir descrever com a precisão
adequada, pensando ou falando.
(A propósito, da
próxima vez que você ouvir sobre o poder das palavras, já conhece no
mínimo um - há outros).
Um último teste:
não pense agora em uma de suas comidas preferidas e não tenha água na
boca, pense na pessoa de
quem mais gosta, lhe fazendo um cafuné em câmera leeeennnntaaaa...
Modelo 1:
Satisfação
“Eu tinha uma
insatisfação crônica, mal me lembrava de momentos em que pude usufruir
plenamente de um sentimento de satisfação. Um dia, uma pergunta simples
me deu a pista para lidar com o problema: com o que estou satisfeito
e com o que não estou satisfeito? Dediquei então alguns minutos a
buscar elementos e aspectos da minha vida e avaliar a satisfação para
cada um. Foi muito interessante: descobri que, no trabalho, estava
satisfeito com o salário, o horário e as atividades, com um senão em
relacionamento com uma certa pessoa. Com relação ao carro, estava
satisfeito com o modelo, o conforto, a potência e o valor pago, e tinha
apenas dois defeitos a resolver (o que fiz em questão de duas semanas). E
assim fiz para esposa, filhos, lazer, computador, tudo que consegui
pensar.
Foi interessante
também que minha mente meio que começou a fazer avaliações de satisfação
sozinha. Surpreendi-me em certos momentos, por exemplo, verificando que
estava satisfeito com minhas roupas e sapatos e que a cozinha estava
legal, exceto pela geladeira que eu queria trocar. Pensando bem, era só
a aparência da geladeira, porque apesar de velha ela estava funcionando
bem.”
Comentários
O protagonista
fazia a avaliação de satisfação como um todo, e as exceções
“contaminavam” o todo assim como uma laranja passada estraga o suco de
10 laranjas boas. Em outras palavras, se não fosse tudo perfeito, o todo
não era perfeito. Segmentar – “abrir” - as percepções, e portanto fazer
avaliações mais localizadas, permitiu não só uma experiência melhor de
satisfação como a identificação das áreas a trabalhar para obter maior
satisfação global. Ou seja, os elementos ou aspectos que atendem aos
critérios tornam-se fontes estáveis de satisfação; os demais tornam-se
objetos de decisão, seja de aceitação ou de ação.
Um possível
enriquecimento desse modelo é ter níveis de satisfação, expressos
por exemplo em percentual: “Estou 80% satisfeito com meu carro” ou
“Estou 90% satisfeito com minha capacidade de perdoar”. Não sentir
satisfação completa aponta para “abrir” o objeto de avaliação e
investigar fontes específicas de insatisfação. No caso de um carro, por
exemplo, poderia ser “o som” e “aquele ruído diferente que escuto quando
passo em quebra-molas”.
Outras
aplicações
- Avaliação do grau
de felicidade. Ao invés de “você” se sentir feliz, abrir a vida em
elementos e aspectos e avaliar a felicidade para cada um. Aqui também as
áreas menos felizes podem ser trabalhadas individualmente.
- Avaliação de paz.
Aqui pode ser interessante um primeiro nível de estruturação em paz interior
e exterior.
Modelo 2:
Medo
“Quando
adolescente, fui mordido na boca por um cachorro grande. Não fiquei
traumatizado, mas passei a respeitar bastante os cachorros maiores. Não
obstante, tinha sensações de medo, às vezes, que me incomodavam. Um belo
dia, resolvi trabalhar esse medo. Como estratégia, resolvi reviver uma
cena do tempo da faculdade, em que peguei o ônibus errado e acabei
parando em um 'mato com cachorro' : à minha frente, no mato quase
escuro, um cachorro grande e preto latia ferozmente – para mim!' Na ocasião não
houve nada, porque o dono do cachorro apareceu, mas achei que a cena
serviria. Acomodei-me em uma posição confortável e mentalmente revi a
cena, procurando alguma coisa, algum detalhe interessante. Estava eu
parado, o cachorro latindo. Resolvi então explorar mais a cena, e
imaginei que o cachorro avançava. Pude perceber então que meu 'eu' na imagem
não fazia nada – estava literalmente paralisado, exceto pelos tremores.
'E se ele fizesse alguma coisa?', pensei. Lembrei-me de uma piada de
safári e leão e imaginei o meu duplo aparando o cachorro. Pareceu
funcionar, mandei o cachorro longe. Rebobinei e veio a idéia de parar a
cena pouco antes do cachorro me atingir e então pus-me a buscar
alternativas, algumas até bem irreais: esquivar-me, morder o bicho,
saltar para trás. No final, o mais interessante não foi me sair bem da
situação, mas sim perceber que o meu medo de cachorro estava relacionado
com meu duplo, a imagem mental de mim mesmo, estar paralisada, sem ação.
Quando ele passou a ter opções de ação, a sensação de medo foi embora.
Não sei precisamente o que faria em uma situação real, mas agora pelo
menos me vêm opções de ação e sei que faria algo
diferente de ficar paralisado.”
Comentários
O protagonista usa
como referência de comportamentos uma imagem mental de si mesmo: se a
imagem tem opções, ele também as tem. Se a imagem sabe fazer algo,
provavelmente ele conseguirá fazer o algo também. O problema ocorreu
porque ele não tinha consciência disso; ao conscientizar-se, teve mais
opções na situação.
O que ele fez é chamado (principalmente) de ensaio mental,
uma técnica usada por exemplo por pilotos de caças e ginastas.
Outras
aplicações
- Medo de dirigir
automóveis, por trauma ou outra razão. Pesquise situações de risco sem
saída em que pode estar se imaginando e busque opções para lidar com
elas. Você pode enriquecer a prática treinando no próprio automóvel
parado.
- Medo de altura.
Verifique se você se imagina caindo com muito realismo. Uma boa opção
para uma situação de altura é verificar se seus pés estão firmes e se
seu corpo em geral está seguro. Se puder, e já que é fantasia,
experimente deixar o filme prosseguir devagar, enquanto você procura
alguma forma de cair que salve sua vida.
- Pesadelos recorrentes. Um colega nosso
usou essa técnica para livrar-se de pesadelos com leões e
aranhas. Veja Um fim a treze anos de
pesadelos.
Modelo 3:
Insegurança
“Após vários
anos sem entrar em uma sala de aula, isso iria acontecer de novo. Eu me
sentia muito mais preparado do que antes, afinal tinha aprendido muito
desde então sobre planejamento de ensino e didática. No
entanto, aquele incômodo continuava lá, uma sensação de insegurança, de
que algo iria sair errado. Isso persistiu por vários dias, até que tive
uma bela inspiração. Como faço às vezes para buscar informação, procurei ver o que estava se
passando no meu espaço mental, e, embora não visse com clareza, pude
notar que a insegurança estava associada a zonas escuras do meu plano de
aula. A brilhante conclusão foi de que a insegurança era uma informação a
respeito de minha preparação: onde estava escuro o planejamento
precisava ser mais trabalhado! Imediatamente vi que não precisava lutar
contra aquela emoção e passei a usá-la como referência: onde estava
escuro ou nebuloso era justamente o ponto em que eu precisava investir.
A partir daí a insegurança não só não me incomodou mais como me guiou, e no fim ministrei um
curso que teve 95% de feedbacks dos tipos 'atendeu' ou 'superou as
expectativas'.”
Comentários
O protagonista fez uma ressignificação: o que era um
sentimento incômodo passou a ser uma indicação, uma informação, que ele
usou para enriquecer a preparação.
Outras aplicações
- Ciúmes, do tipo
romântico. Podem ser uma indicação de risco, de perigo de perda de um
relacionamento de valor. Definir ações para nutrir, harmonizar e
enriquecer o relacionamento vão atenuar esse processo. Bem, conforme o
perfil da outra pessoa, talvez sejam necessárias ações para satisfação
de certas necessidades...
- Incerteza,
insegurança a respeito da qualidade de um produto, como um texto, artigo
ou relatório. Por vezes pode haver uma percepção subconsciente de algum
aspecto que precisa ser melhor trabalhado. Pedir a outra pessoa uma
leitura crítica pode ajudar.
Dicas
Algumas sugestões
para enriquecer suas ações de intervenção emocional:
- O uso regular de
um procedimento faz com que ele seja executado cada vez mais
fluentemente, como qualquer habilidade. Experiência e feedback também ajudam a
mostrar o que é mais apropriado e a enriquecer a habilidade com mais
opções e variações.
- As pessoas e
situações são diferentes. Alguém pode lhe mostrar caminhos, mas há
decisões que só podem ser tomadas no momento. Isso é semelhante a
dirigir: você tem um destino e um caminho para chegar lá, mas o quanto
vai acelerar ou frear, quando vai girar o volante e outras escolhas só
podem ser feitas no momento presente, por quem está lá, tem as
informações e está dirigindo. Você é a pessoa mais próxima de si mesmo e
portanto tem a melhor perspectiva e as melhores informações, o que o
torna a única pessoa que pode deliberar o melhor a fazer em cada
momento.
- No texto dissemos que você tem uma capacidade natural
de visualização. Há uma outra perspectiva que pode estruturar melhor esse
processo. A base é considerar que sua mente é que gera as imagens e
significados, em resposta ao que você pensa ou fala. Assim, a visualização pode
ser vista como tendo três passos: você expressa o que quer visualizar, as
imagens e outros elementos do significado são gerados pela mente no seu espaço
mental e você então direciona sua percepção e atenção para o local do espaço
mental onde estão as imagens. Isso lembra você e o computador: você executa um
controle, como um botão, link ou item de menu, e a resposta aparece no monitor.
Você controla, o computador processa e lhe responde.
Essa perspectiva abre a possibilidade, por exemplo, de você
expressar algo que queira visualizar e veja o que foi gerado, avaliar e, se não
for exatamente o que você pretendia, já que a linguagem tem uma imprecisão
inerente, reformular e ajustar a forma como descreve o que quer. Uma espécie de
diálogo construtivo.
Possíveis
obstáculos
Se você quiser um
caminho seguro para gerar emoções como frustração e desapontamento,
basta ter e manter expectativas de que tudo vai sair conforme imaginado e
planejado. A realidade não é bem assim, como o deve demonstrar sua
própria experiência. Seguem alguns possíveis obstáculos no caminho da
intervenção emocional.
Objetivos em
andamento - Objetivos são um
dos pilares da inteligência: experimente fazer de conta que não tem
nenhum e veja que provavelmente ficará estático, paralisado. Assim, quer
você esteja consciente disso ou não, e está agindo, você tem objetivos.
O que está acontecendo de indesejado pode estar associado a um objetivo,
sendo usado para uma finalidade. Por exemplo, uma pessoa pode ficar
doente; ela não quer isso, mas usa o fato como justificativa para não ir
trabalhar. A condição dela então estará sendo usada para algo que ela
quer, e isso pode reduzir o impulso de agir para a cura.
Você pode saber se
uma ação de intervenção emocional tem um outro objetivo como obstáculo
se tiver uma sensação de conflito, de resistência interior à mudança.
Inflexibilidade
de convicções – É importante
termos bem estabelecido para nós mesmos como é e como funcionam o mundo,
as pessoas e nós mesmos; usamos essas referências - crenças - por
exemplo para gerar opções e fazer escolhas. O obstáculo é quando temos
crenças firmes mas que não correspondem precisamente à realidade, ou a
realidade na qual as crenças foram geradas mudou. Uma evidência de que
isso está acontecendo é a negação das exceções às crenças: você
presencia algum fato e diz ou pensa “Mas não é possível” ou “Não
acredito”; uma experiência com potencial para proporcionar evolução pode
ser perdida.
Se uma idéia para intervenção emocional surgir em sua mente
após ler este artigo e você observar alguma resistência, isso pode estar
ocorrendo devido a uma crença de que não é possível ou a ausência de uma crença
de que é possível.
Expectativa
prematura de resultados – Um
dos grandes obstáculos potenciais ao aprendizado é querer obter
resultados antes de dominar o processo que o levará até eles ou enquanto
se aprende o processo. Um exemplo trivial seria esperar digitar um texto
no computador rapidamente sem ter treinamento em digitação. Dominar o processo
– digitar – é que conduzirá ao resultado - o texto pronto logo. Assim,
nas primeiras vezes - e isso se aplica a muitas outras coisas que você
faz - mantenha o foco em aprender o processo e progressivamente
experimente, domine e enriqueça o processo que os resultados virão
naturalmente, como conseqüência. Algo como primeiro aprender a plantar e a colher,
depois plantar e então colher.
Conclusão e
perspectivas
Os modelos aqui
apresentados tem outra coisa em comum além de serem destinados a
intervenções emocionais: os três partem de um espaço-problema. Este não
é único enfoque; outro é o de objetivo. Mesmo que você não
precise de algo, pode proativamente estabelecer como objetivo que algo
relacionado a emoções vai acontecer em sua vida. Por exemplo, você pode
estar satisfeito com algo e deliberar que ficará ainda mais satisfeito.
Isso e muito mais é possível e, como espero ter demonstrado, não é
necessariamente difícil; o ponto mais importante não é a complexidade,
mas sim você saber o que quer e o que fazer. Em síntese, ter
destino e caminho.