Era uma vez um menino muito desleixado e mal-educado. Se
tirava, não guardava. Se guardava, era de qualquer jeito. Se
tirava a roupa, onde caía, ficava. Escovava mal escovado, quando
escovava. Penteava atrapalhado.
Seus pais tentavam fazer com que ele melhorasse. E falavam no
seu ouvido. E falavam de novo. E filho isso, filho aquilo, faça
assim, nao faça assado. Mas ele não melhorava, nem um pouquinho
que fosse.
Porém, o menino tinha um anjo da guarda muito paciente e bom
(haverá algum que não seja?), que se preocupava com ele.
O anjo sabia que, se o menino continuasse assim, seria muito ruim
para ele. Já havia tentado aparecer nos seus sonhos, sem
resultado. Então o anjo tomou uma decisão: iria aparecer de
verdade para o menino. É, anjos não costumam aparecer, mas
podem quando querem. E ele assim o fez.
Um dia, o menino tomava seu banho (desleixado) quando chamou
sua atenção uma luz suave entrando pela pequena janela do
banheiro. Seu coração bateu mais forte: a luz foi tomando
forma, a forma de um moço bonito, com belas asas brancas e
vestido com uma bata azul, suspenso no ar. O garoto não sabia se
gritava, se pegava a toalha ou se corria, e ficou imóvel, de
boca aberta e olhos arregalados, olhando o anjo.
O anjo fez um sinal para o menino fechar a torneira do
chuveiro, e ele o fez. Em seguida apontou para a parede, onde
começaram a surgir imagens, como num filme. Ao se ver no filme,
o menino se interessou, e até se esqueceu de perguntar quem era
o anjo. Esqueceu-se até de que estava pelado.
E o menino viu, nas imagens muito coloridas do filme, ele
mesmo. Não o menino desleixado e mal-educado. O que ele viu foi
a si mesmo guardando suas roupas no armário. Viu-se escovando
muito bem os dentes, e viu estes muito brancos e bonitos. E se
viu brincando e também organizando seus brinquedos. Viu-se
brincando na terra e depois colocando as roupas sujas no cesto de
roupa para lavar. Viu-se respeitando os mais velhos, e também os
mais novos. Viu também como tinha tempo para estudar e para
brincar. E viu mais: viu como seus pais ficavam satisfeitos com
ele. Viu como tinha muitos amigos, e como os amigos gostavam
dele, e os pais dos amigos também gostavam dele.
E o filme continuou a passar, com cores bonitas. O menino do
filme foi crescendo.Passando de ano na escola com boas notas.
Brincando, na hora de brincar. Namorando, na hora de namorar.
Ajudando nas coisas da sua casa. Tudo com muito capricho e
cuidado. Viu-se também ajudando pessoas, e sendo ajudado. Em
cada idade, muitos amigos e amigas, e uma expressao feliz. Viu-se
também errando algumas vezes, e aprendendo muitas coisas
interessantes com os erros. E viu que ele também estava mais
satisfeito consigo mesmo. Eram tantas coisas bonitas que o menino
sentiu vontade de entrar no filme.
De repente, ao lado desse filme surgiu outro filme, com
imagens bem diferentes, que o garoto conhecia muito bem. Nestas
novas imagens aparecia ele, o garoto desleixado, escovando mal os
dentes. Tratando mal as pessoas. Fazendo seus deveres de qualquer
jeito. Quando o garoto do segundo filme começou a crescer,
repetindo o ano na escola e com os dentes cariados, o menino,
desviando o olhar das imagens, tapou os olhos com as mãos. O
anjo viu que ele tinha percebido o que iria aparecer ali, e as
imagens do segundo filme foram enfraquecendo, enquando o primeiro
filme ficava ainda mais belo.
Nesse momento, alguém bate na porta e ouve-se a voz da mãe
do menino reclamando da demora. O menino, tirando as mãos dos
olhos, vê o anjo levando o dedo indicador à boca, como quem
diz: "você não precisa contar para ninguém". As
imagens na parede sumiram e o anjo foi voltando à forma de luz
até desaparecer pela janela, enquanto o menino olhava,
maravilhado.
Ouvindo de novo a voz da mãe insistindo, o menino respondeu,
enquanto esfregava atrás das orelhas com a bucha: