Controle a parte subjetiva da percepção de
temperatura
As nossas sensações de frio ou calor têm um
componente objetivo, ligado à temperatura do ambiente, e outro
subjetivo, relacionado à pessoa em si e seus padrões de percepção.
Você tem evidências disso se alguma vez viu alguém sentindo frio e
você não estava, ou então era você que sentia e o outro não. Você
certamente já tem uma série de alternativas para lidar com a parte
objetiva: abrir ou fechar portas e janelas, vestir ou tirar alguma
roupa, ventiladores e outras. Veja
aqui uma estratégia muito fácil de executar que pode ajudá-lo a
controlar melhor a parte subjetiva do frio ou do calor.
A base da estratégia é o fato de termos uma
interessante capacidade de generalizar sensações. Você já viu
alguém que se dormir com os pés descobertos "morre" de frio?
Só os pés estão expostos, mas a pessoa sente frio no corpo todo.
Ocorre que as sensações de frio ou calor não estão no corpo todo,
apenas em algumas partes. O truque é você prestar atenção de uma
forma mais segmentada, mais "fina".
Verifique isso fazendo uma varredura pelo seu corpo,
procurando notar onde está mais frio, onde está quente e onde está
neutro. Você vai notar várias diferenças: o que está sob roupa está
de um jeito, o que está de fora de outro, podendo também haver
diferenças conforme a altura da parte.
Agora escolha uma área com sensações mais definidas
e dirija sua atenção para ela. Pelo menos por alguns momentos, você
vai reagir somente ao que está sentindo ali. Isso é a mesma
coisa que fazemos com dores: segmentar a atenção, focar e ficar
reagindo só ao que estamos conscientes. Para não ficar prestando
atenção a uma só parte do corpo, você pode atentar para várias
partes e reconstruir a percepção global do corpo, desta vez com mais
fidelidade.
Passo a passo, fica assim:
- Pista: você percebe sensações de frio ou
calor, e as considera desconfortáveis o bastante para interromper o que
está fazendo e fazer alguma coisa para lidar com as sensações.
- Decisão: você tomará providências
externas, perceptivas ou ambas. Se optar pelas perceptivas, vai ao
próximo passo.
- Segmentação da atenção: com vagar, você
varre seu corpo procurando pontos ou regiões onde a sensação de calor
ou frio é mais intensa. Depois busca por pontos onde não
está sentindo a sensação.
Se tiver alguma dificuldade neste passo, exercite-se
em situações de maior contraste, como entrando em um carro que ficou
ao sol, chegando em um janela onde está batendo sol ou pondo algo frio
ou gelado em algum local do corpo.
- Reconstrução da percepção: Preste
atenção novamente ao corpo como um todo, já com as percepções
parciais.
- Retomada: Volte ao que estava fazendo.
Tive a oportunidade de sugerir esta opção para uma
colega de treinamento que estava com os braços junto ao corpo e
reclamando de frio. Ela fez o que sugeri e fez uma expressão de
surpresa: sua sensação de frio passou na hora. Só não sei se com
você o resultado será assim tão imediato.
Um lado bom de tudo isso é que é um tipo de
habilidade, e por isso, quanto mais experiência, mais ela se torna
fácil e automática. Outro lado é que há limites: pelo menos para
mim, funciona bem até um certo grau de frio ou de calor. Nas
situações-limite, em geral ainda tenho a opção de ter algum prazer,
como apreciar o aconchego de um paletó ou coberta ou o prazer aumentado
de beber uma água ou suco gelados. Uma curiosidade, no meu caso, é que
em certas situações de calor tenho também a opção de executar
somente o último passo, retomar o que estava fazendo. O que não
percebo não me incomoda.
Tem ainda outro aspecto: nossos auto-organizados
corpos regulam sua
temperatura, e, se por fora está frio ou quente, por dentro está
estável, em torno de 37 graus Celsius. Por isso, se você estiver com
frio ou calor, é só por fora!
Virgílio
Vasconcelos Vilela
DEPOIMENTOS
"Lendo 'Como amenizar sensações de frio e
calor' fiquei encantado. Confirmo as colocações feitas, pois empiricamente já utilizava essa
técnica em relação à dor. Funciona mesmo!!! No meu caso, quando sinto dor em um
determinado local do corpo, me concentro em outro, tentando sentir a dor no local em que estou
concentrado. Como naquele local não há dor, isso faz amenizar a dor no local onde ela realmente está acontecendo."