Se modelos mentais fazem parte da nossa inteligência
e convivemos com eles todo o tempo, porque podemos falar de modelos
mentais com alguém e este ou esta fazer aquela expressão de quem
jamais ouviu falar do assunto? A resposta representa também a maior
dificuldade ao se lidar com modelos mentais: eles estão em grande
medida inconscientes. Como disse Peter Senge, em A Quinta
Disciplina:
"Os problemas dos modelos mentais não estão
no fato de eles estarem certos ou errados - por definição, todos os
modelos são simplificações. Os problemas com os modelos mentais
surgem quando os modelos são tácitos - quando eles existem abaixo do
nosso nível de consciência."
Como Senge complementa, modelos inconscientes não
são examinados, e como não são examinados, permanecem inalterados.
Significados de "inconsciente"
Dizer que modelos mentais estão inconscientes pode
ter vários significados:
1) Não prestamos atenção neles
Você possivelmente não estava consciente da
sensação do seu pé esquerdo em contato com a meia, o sapato ou o
chão até que eu o mencionasse. De maneira geral, há várias coisas
que sõ ficam inconscientes porque não direcionamos nossa atenção
para elas. Um exemplo clássico é o da estratégia mental de soletração. Por exemplo,
soletre "sistema"; como você faz? A estratégia de pensamento
típica é gerar uma imagem interna da palavra e ir lendo cada letra.
Mas não prestamos atenção nisso, nem precisamos, há uma parte do
nosso pensamento que funciona melhor quando inconsciente. Imagine o que
pode acontecer se você estiver dirigindo e ficar prestando atenção no
que está pensando. A atenção, no caso, deve passar a maior parte do
tempo buscando informações do que está acontecendo lá fora.
2) Não estão em forma visível
Uma criança em idade pré-escolar se expressa com
facilidade usando a linguagem, que tem muitas regras sintáticas e
exceções, além de usar certos tons de voz e não outros, em sintonia
com o que quer. Para conseguir algo, pedir em certos tons de voz
funciona, e em outros não. Ela fala usando regras, mas não podemos
dizer que as regras estão lá, porque ela não as aprendeu na escola, e
sim por observação de padrões usados por outras pessoas.
3) Estão realmente inconscientes
Uma pessoa que acredita que é "tímida"
pode ter gerado essa crença há tanto tempo e isso ter se incorporado
tão harmoniosamente à sua auto-imagem que ela parou de prestar
atenção e, se quiser fazer isso, terá que usar uma estratégia que o
possibilite ou facilite.
Formas de conscientização
Cada significado abre alternativas distintas para a
conscientização de algum modelo mental que estamos usando.
A primeira é obviamente prestar atenção, como no
caso da soletração. Uma pessoa que fica deprimida por ter uma
"voz" interna que fica dizendo o que ela fez de errado pode
dirigir sua atenção para o canal auditivo interno (veja Inteligência
Emocional: Depressão - doença ou capacidade?). Uma pessoa com medo
pode buscar por imagens associadas à emoção. Esta alternativa de
prestar atenção possui em si várias possibilidades, que estaremos
detalhando em uma próxima matéria.
A segunda é, no caso de não haver regras instaladas
e sim um padrão de comportamento ou expressão, a alternativa é
observar vários comportamentos e detectar padrões. Um exemplo é o uso
do verbo 'ser' para descrever estados, como "sou tímido com mulheres
bonitas" ou "sou incapaz de X". Há pessoas que realmente
tem essa crença no formato de linguagem, mas outros podem simplesmente
estar se baseando em reações anteriores. Há pelo dois padrões
observáveis aqui: Um é comportamental, o padrão de se comportar
timidamente em certas situações. O outro é o uso do verbo 'ser' para
descrever estados, que são dinãmicos, como se fossem algo permanente.
A terceira alternativa pode representar o maior grau
de dificuldade, em particular porque a conscientização de algo
profundo, possivelmente rejeitado, pode provocar emoções limitantes e
prejudicar um processo de aperfeiçoamento dos modelos mentais.Para isso
existem várias linhas de terapia, a hipnose e técnicas como o uso de
palavras como estímulo com a subsequente observação (prestar
atenção) das respostas internas produzidas. Os aspectos mais
relevantes aqui são a intenção de busca e a disponibilidade de
opções de ação para lidar com o que for encontrado.
Uma bom ponto de partida para a conscientização dos
modelos mentais é saber o que pode haver neles, tema da matéria
Conteúdo dos modelos mentais.
Formas de representação e cuidados
Uma vez que conseguimos detectar algo dos nossos
modelos mentais, é importante ter uma boa forma de representação do
que descobrimos. Nossos modelos mentais atuais vão estar afetando nossa
forma de descrever o que encontramos. Por exemplo, posso descobrir que,
quando observo uma pessoa com alguma deficiência física, direciono meu
foco para o defeito ou o que considero um defeito. Se a partir dessa
observação eu gero um rótulo do tipo "Como sou
preconceituoso", na verdade posso estar reforçando uma parte do
meu modelo, ao invés de melhorá-lo. O ponto aqui é ter opções de
ação objetiva para a forma de representação; se eu tenho opções de melhoria
para quando descubro que "sou" algo, ótimo, caso contrário
pode só servir para eu ficar chateado.
Quanto mais factual for a representação do nosso
conhecimento, isto é, quanto mais distante da abstração e mais próximo do
nível dos acontecimentos, mais serão as opções de ação. Se, ao
invés de rotular-me, eu me concentrar no padrão de dirigir a atenção
para certos detalhes das imagens em detrimento de outros (que é uma
habilidade), posso exercitar-me em focar também outros aspectos,
enriquecendo a habilidade já instalada.
Como nosso corpo e mente são sistemas integrados,
aprender a pensar sistemicamente e usar a linguagem do Pensamento
Sistêmico para representar nossas descobertas será uma boa, a
melhor ou quem sabe a única opção útil.
Será mesmo necessário a conscientização?
Certas afirmações conclusivas às vezes me fazem
pensar se não há alternativas. Isso se aplica aqui: será que
precisamos mesmo ter consciência dos modelos mentais? Percebo uma
alternativa, baseada no fato de que nossa mente é auto-organizada, isto
é, interagimos com ela, mas, assim como um computador se organiza por si
mesmo, ela tem lá sua ordem. A alternativa que vislumbro é o
aprendizado de novas formas de pensar, como o Pensamento
Sistêmico já citado. Bem aprendido, é natural que nosso sistema se
reorganize em função das novas habilidades. Afinal, modelos mentais são
gerados por habilidades de pensamento (veja Como são criados os modelos mentais). Nesta opção, apenas instalamos
as novas habilidades e permitimos que o sistema se reorganize, enquanto
observamos para ver se está indo bem e, se não estiver, fazemos então
os ajustes necessários. Sugiro considerar também essa possibilidade.