Uma
capacidade inata que pode ser origem de dor ou prazer
Como
é que você sabe que algo é "bom", está "certo" ou
não? Como é que você reconhece uma pessoa? Como é que você sabe que
atingiu um objetivo? Para conseguir fazer todas essas coisas e muitas
mais, você precisa usar uma capacidade de pensamento que vem do berço: a comparação. Nesta
matéria você vai ver como essa habilidade influencia a suA vida e como usá-la melhor.
Quando você passa por alguém na rua, precisa fazer
uma verificação: é um conhecido? Como você sabe se já viu alguém?
Parece óbvio que deve comparar a percepção atual do rosto com as
imagens de rostos armazenadas na sua memória. Uma evidência disso é
quando a pessoa não é reconhecida, mas se parece com alguém conhecido;
muitas pessoas comentam como ele se parece com alguém: o cérebro, quando
não encontra um conhecido, retorna um semelhante. Outra evidência da comparação é que, no caso de um
conhecido, se seu rosto ou corpo está mais cheio, ou se está abatido,
você percebe as diferenças. Isso quer dizer que, no nível
subconsciente, sua habilidade de comparar é capaz de perceber diferenças mínimas nos
contornos da pessoa ou em detalhes sutis de sua aparência. Tendo
em vista a quantidade de pessoas que você conhece e que você faz isso
mais rapidamente que um piscar de olhos, essa etapa de comparação é
executada de maneira incrivelmente veloz.
Mais
exemplos. Se
você está martelando um prego, como sabe que já terminou? É porque
mantém internamente uma imagem de como quer o prego, e vai martelando.
Quando a situação percebida, ou seja, "lá de fora", estiver igual à que
pretende, então você pára. Se o prego vai prender algo em madeira,
você o quer enterrado. Se for para segurar um quadro, vai deixar uma
sobra. Em ambos os casos, você compara a situação que percebe com a
desejada, e age enquanto esta não é realizada. Também nesse caso a
capacidade de comparar é insubstituível.
Agora
pense em duas viagens de férias que fez; de qual gostou mais? Pense
também em dois prazeres que sentiu e diga qual foi o melhor. Para fazer
isso você precisa acessar lembranças das férias ou dos prazeres e... compará-las, é
claro.
E
como você sabe que uma pessoa é "bonita"? Comparando com
imagens de referência de beleza. Como sabe que um instrumento ou voz
está afinado? Comparando com a afinação correta. De passagem, vale
comentar que, no caso da beleza, sua percepção não é estável e
rígida; basta lembrar-se de uma pessoa ou uma música que a princípio
não achou bonita e depois passou a achar.
Mesmo
as sensações podem ter elementos de comparação; quando você toma
limonada e depois come um doce, sua percepção deste muda, não? Outra
evidência disso é a clássica experiência de por a mão esquerda em
água quente, a mão direita em água fria e depois ambas em água morna:
as sensações de cada mão na água morna são diferentes.
E
até as noções de lentidão e rapidez podem ser resultado de
comparações. Você já fez uma viagem de 2 horas seguida de outra de 6?
E uma que durou 9 horas, seguida de outra que durou as mesmas 6? Qual das
que duraram 6 horas lhe pareceu mais "rápida"?
Uma
pessoa com roupa branca parece mais morena; um novo videogame ou
computador pode tornar o que temos "ruim". Os
exemplos podem prosseguir indefinidamente, mas creio que ficou
demonstrado que a capacidade de comparar é um processo que você e eu
usamos todo o tempo, e o fazemos a uma velocidade tão grande que pode
tornar o processo inconsciente.
Em
geral, todo
processo de comparação que fazemos tem pelo menos a coisa comparada e a
referência de comparação. Por exemplo, se você se compara com uma
pessoa em altura, a referência de comparação é a altura da outra
pessoa. Uma referência pode ser um rosto, um sabor, um som, um nariz,
comportamentos específicos e o que quer que você possa distingüir.
Mas será
que são só benefícios o que obtemos ao fazer comparações?
Muitas
vezes fazemos avaliação do nosso desempenho: fui bem? O resultado desse
tipo de comparação pode nos animar ou não. Mas qual foi a referência
da comparação? Se alguém prepara um almoço, para avaliar se está bom,
pode ter várias referências: o melhor que já fez, o melhor que já
comeu, sua própria expectativa de qual era a comida que pretendia fazer.
Um
exemplo pessoal. Eu escrevi e reestruturei uma apostila de programação de computadores,
de mais de 200 páginas, oito vezes
e não fiquei satisfeito. Ao aprender sobre como eu fazia avaliações, descobri que
sempre que terminava uma versão tinha várias idéias para melhorar o
material, e essas idéias não podiam ser inseridas devido ao final do prazo, o início do semestre letivo. Como minha referência de comparação era a
apostila - melhor - que eu tinha na minha mente, o resultado foi que eu via de regra julgava a
apostila "ruim" ou não boa o bastante. E isso acontecia mesmo
recebendo bons feedbacks dos estudantes sobre a dita cuja.
Há
pessoas que, para saber se o que obtiveram está bom ou não, sempre comparam com
o melhor que já fizeram antes. Por exemplo, uma mulher tem orgasmos
múltiplos com um homem; na próxima vez, este pode ter a expectativa de que ela os tenha de novo; se isso não ocorrer, foi "ruim".
A comparação também pode ter como referência a intensidade de um
orgasmo anterior. Isso pode
ocorrer com passeios, filmes, sorvetes e todo tipo de coisa.
Uma
pesssoa pode até, por exemplo, ficar deprimida por não conseguir
avançar na resolução de um problema, resultado direto da referência de
comparação que ela está adotando. De maneira geral, muitas emoções
são resultado de comparações.
Assim,
uma comparação pode ou não ser útil para o que pretendemos, pode ser
melhor ou pior conforme o caso.
Idéias
são boas mesmo quando podemos e sabemos aplicá-las no dia a dia; esta
seção apresenta algumas possibilidades. Antes de procurar aplicá-las,
porém, verifique suas estratégias de pensamento, pode ser que você já
esteja usando bem as comparações e não está tendo consciência disso!
Para
usar as percepções acima em nosso benefício, vejo duas formas: não
comparar, quando isso for útil, ou distinguir que estamos comparando e qual é a referência de
comparação, modificando-a quando for o caso.
A
opção de não comparar pode não ser tão fácil no início, porque as
comparações fazem parte de "programas" muito bem instalados na
nossa mente, tão bem que os executamos rapida e subconscientemente. Um ponto de
partida para evitar comparações pode ser trazer a atenção para o
momento presente e avaliar o que está acontecendo no agora: O que estou
vendo? O que estou sentindo?
Já
alterar a referência de comparação pode ser mais acessível: basta
direcionar a atenção para o processo de pensamento, assim como um
observador, possivelmente utilizando o poder provocador e
direcionador das perguntas: "Com o que estou comparando?".
No
caso da apostila citado acima, ao tomar consciência do que estava fazendo
internamente e da referência de comparação, pude reavaliar a qualidade
do trabalho por outro enfoque. E mais, descobri a possibilidade de ter
várias referências de comparação e escolher a mais apropriada.
Veja
abaixo alguns exemplos de contextos de aplicação dessas
sugestões:
-
Em uma viagem, conscientemente lembrar (e enfatizar) a viagem mais longa
que já fez, para tornar a atual mais tolerável.
-
Ao agir em direção a algum objetivo, comparar a situação atual com o
que se quer (o que falta) e também com o que já foi obtido.
-
Em uma relação sexual, prestar atenção às sensações e avaliar se
são agradáveis por si, ao invés de verificar o quanto falta para algo
acontecer (orgasmos são subprodutos, não são obtidos diretamente).
-
Ao comer um estrogonofe que não é o melhor que já se comeu, concentrar
a atenção nas sensações que está se tendo, isto é, buscar sentir
prazer a partir das sensações e não da comparação. Isso
vale para prazeres sensoriais em geral.
Uma
outra linha de aplicações dessas idéias envolve lidar com a referência
de comparação de outras pessoas. Considere o preço de um produto;
"caro" e "barato" são noções derivadas de
comparações. Certos vendedores fornecem a referência de comparação
antes que usemos a nossa, como aconteceu em uma feira: o vendedor me
ofereceu um produto cujo preço "normal" era $230 e
excepcionalmente, naquela feira, poderia ser adquirido por
"somente" $170.
Em outro caso que ouvi, o esposo colocava a
música bem alto; a esposa reclamava, e ele então abaixava o volume para
o que ele efetivamente queria!
E
se você avalia se é feliz ou não com base em comparações, pode ir
até um asilo ou instituição que cuida de deficientes dar uma
voltinha...
O
que esperar de investir tempo no aperfeiçoamento das comparações que
fazemos? Os possíveis benefícios que já percebi incluem:
-
Mais prazer, de vários tipos;
-
Menos estresse e ansiedade, e portanto maior calma e paz interior, resultado de melhor aceitação da
situação atual (por exemplo, em viagens);
-
Mais justiça na avaliação dos outros, de nós mesmos e dos
comportamentos de todos. Você pode, por exemplo, encontrar novos tipos de
beleza, como em outras raças. Se cria expectativas de crianças com base
em comparações com padrões adultos, pode avaliá-las melhor usando
padrões mais adequados a cada idade. Pode também ajustar as expectativas
com relação às pessoas em geral para padrões mais realistas.
-
Riqueza de visão do mundo. Você pode ter várias referências de
comparação para a mesma situação. Isso também implica em mais
flexibilidade e liberdade interior.
-
Expansão da inteligência emocional. Note que, ao mudar uma referência
de comparação, você pode mudar até a emoção que está sentindo.
-
Mais auto-domínio e auto-liderança. Assumir a responsabilidade por suas
referências de comparação lhe conduz a um maior controle da sua
própria rédea.
-
Melhor comunicação. Sabendo que outras pessoas fazem comparações,
você pode, como nos casos acima, fornecer referências mais apropriadas
para conseguir o que quer (se você vai usar esse recurso de maneira
ética ou não é outra escolha sua!).
-
Maior competência. Se você fica mais calmo, mais flexível, mais livre,
mais auto-líder, com maior inteligência emocional e se comunica melhor, naturalmente se torna
mais competente e eficaz no que faz.
O
sistema humano é complexo e, no caminho de mudanças, nem sempre previmos
tudo. Listamos algumas
interferências que você pode encontrar ao lidar com as comparações e
alternativas para lidar com elas:
-
Falta de hábito. Pode ser que você não esteja acostumado a prestar
atenção no que faz internamente, o que é uma coisa boa no dia a dia,
quando realmente deve predominar a busca de informações "lá
fora" e a espontaneidade. Algumas coisas podem parecer estranhas, mas
são só novas, e, após alguma prática, vem a familiaridade e a
segurança.
-
Rapidez devido a grande competência inconsciente. A dificuldade de
identificar a referência de comparação advém da grande velocidade de
execução do processo de pensamento. A solução é persistir, variando
alguma coisa, como a pergunta. Estar em um estado relaxado também vai
apoiar a busca, devido a um ciclo de percepção mais lento.
-
Não-crença. Em geral, para fazermos algo, há uma crença na
possibilidade de sermos capazes ou obtermos algum benefício. Se
conscientemente você pressente alguma boa oprtunidade nas idéias acima,
pode adotar a estratégia de agir "como se" fosse verdade ou
como se fosse útil, só para testar melhor a idéia. Essa capacidade
todos temos, uma vez que a treinamos desde crianças, brincando de
faz-de-conta ou fantasiando.
-
Pressa interna. Às vezes projetamos expectativas de resultados um pouco
mais cedo do que seria realista para nossa capacidade atual. A solução
é adequar as expectativas: a cada momento estamos fazendo o melhor que
podemos.
-
Desmotivação. Faz parte das nossas estratégias de decisão projetar o
curso futuro dos acontecimentos. Pode ocorrer que você esteja projetando
benefícios que acha que não valem a pena. Isso pode ser bom o bastante,
e sua decisão é então apropriada. Mas se desconfia que sua projeção pode
estar incompleta ou superficial, ou simplesmente para se certificar, você
pode dedicar mais algum tempo a imaginar como seria um possível futuro em que você
tenha amadurecido a habilidade de lidar com comparações.
Há
outras possibilidades de aperfeiçoamento de comparações. Você pode,
por exemplo, entrar nos detalhes de como imagina o que compara (posição
no espaço, luminosidade, tamanho) e alterar o tamanho do segmento dos
objetos de comparação (mais genérico, mais específico: pessoa, rosto,
olhos; cidade, local da cidade, o que fez no local).
Você
já deve saber que não há limites para o que se pode aprender; isso
depende mais da sua vontade e de suas decisões sobre até onde vai e o
que vai fazer com esse conhecimento e as habilidades dele resultantes.