Se tudo o que você faz flui naturalmente, sem nada
que atrapalhe, você não precisa ler isto. Mas creio que o mais
realista mesmo é encontramos obstáculos, alguns deles em nós mesmos e
coisas que possivelmente nem escolhemos, apenas foram efeitos
indesejados de escolhas que algum dia fizemos. Veja aqui alguns que
você pode encontrar nesse caminho de explorar melhor o imenso potencial
de inteligência com que nascemos. Para cada um também vão sugestões
de ações.
O fato de os chamarmos "obstáculos" é
circunstancial. Se você quiser referir-se a eles como
"oportunidades de melhoria e aprendizagem", tanto melhor, essa
escolha é sua. O que importa mesmo são as possibilidades de ação que
nos são inspiradas.
1) Inflexibilidade de modelos mentais
Desde que começamos a perceber as coisas, vamos
formando modelos mentais de como nós, as outras pessoas e o mundo são
e funcionam. Às vezes, esses modelos não são muito precisos ou até
são errados, como no caso em que formamos uma imagem de uma pessoa,
diferente da realidade. Quando queremos mudar, esses modelos podem nos
atrapalhar, em particular quando nos apegamos a eles como se fossem uma
tábua de salvação, por vezes de forma inconsciente, isto é, nem nos
lembramos de que estão por lá.
Ações possíveis: Os modelos mentais são
filtros da percepção, eles nos guiam, por exemplo, sobre o que é
importante notar e como interpretar o que notamos. Experimentar um novo
filtro é surpreendentemente fácil, bastando usar uma estrutura do tipo
“E se...? ou “Como se”, de forma análoga a brincar de médico ou
de teatrinho. Quer ver? Certifique-se de que não há ninguém vendo e
faça de conta por 30 segundos (mais do que isso, eu não me
responsabilizo...) que é louco varrido. Muita gente muda o filtro ao
conversar com um bebê (alguns com a namorada).
Teste com um princípio da PNL:
“Todo comportamento tem uma intenção positiva”. Lembre-se de uma
situação qualquer com gente e observe-a com esse filtro: qual é a
intenção positiva da pessoa X? E agora, qual está sendo sua
intenção positiva ao ler isto?
2) Superficialidade
Muitas vezes presumimos que sabemos algo, tentamos
aplicá-lo e... nada. Uma possível causa disso é que de fato não
aprendemos tudo que devíamos ou não tão bem quanto preciso - um erro
de cálculo. Um manual de videocassete, por exemplo, tem instruções
passo a passo, e só fica difícil quando há pressa na obtenção de
resultados e desatenção.
Ações possíveis: Dê-se tempo. Preste mais
atenção, com mais calma. Estude, pratique e aplique mais, teste-se e
teste o novo conhecimento ou habilidade. Quando errar, verifique se isso
foi tão dramático na realidade quanto você imaginou.
3) Não ter objetivos, ou não tê-los bem
formulados
Ter um objetivo, querer alcançar algo, é
pré-requisito para mobilizarmos nossos recursos. Quem não quer
nada, nada faz. Outra forma de ter as coisas dificultadas é ter
objetivos que dependem de outras pessoas ou que cuja consecução nem
sempre pode ser verificada por ser muito vaga, como possivelmente “ser feliz”. Se você não souber bem o
que é felicidade para você, como vai saber que a está vivendo? Isso
vale até para relacionamentos: quando você sabe o que quer do outro,
não fica cobrando tanto e aceita melhor as limitações dele ou dela
Ações possíveis: ouse querer e gostar de
coisas, sem apegar-se demais a elas (exceto talvez às mais importantes
e prioritárias), para poder ter mais. Faça uma lista de “quereres”
e aumente um por semana. Busque desafios à sua altura, ou um pouco
mais, dando-se tempo adequado para vencê-los. Para cada querer,
identifique o que ele vai trazer de bom para você ou para outras
pessoas.
4) Foco oscilante
As pessoas que gostam de coisas interessantes podem
às vezes se deixar levar por elas e perder o foco. Estão atrás de
algo, aparece outra coisa mais interessante, elas largam aquela e vão
na sua direção, esquecendo a anterior. Se isso ocorre com objetivos de
desenvolvimento pessoal, a pessoa pode não se dedicar tempo bastante
para conseguir resultados.
Ações possíveis: Conscientização da
mudança de foco, observando também outras pessoas. Prática de
atenção consciente, como por exemplo ficar prestando atenção em algo
e só sair dali por escolha voluntária. Meditação.
5) Motivação por afastamento
Muitas pessoas têm em certas situações um padrão
de motivação por afastamento, ou seja, elas agem para que algo
desagradável não aconteça ou para não perder alguma coisa, mesmo que
não esteja sendo útil. O problema de só ter esse tipo de motivação
é que pode ser facilmente perdida. Por exemplo, alguém que quer
emagrecer para não ser mal vista pelas pessoas, quando mais reduz o
peso, menor a motivação.
Ações possíveis: Prática regular de pensar
em e sobre coisas que quer, antecipando possíveis prazeres ao
conseguir. Pense três vezes ao dia no que você já tem e conseguiu e
já está podendo usufruir, e fique um minuto de cada vez só sentindo
como é bom. Se tiver dificuldades, pense em como as coisas poderiam
estar ruins e depois pense em como estão agora. Se ainda assim tiver
dificuldades, segmente sua vida por papéis (pai ou mãe, filho,
profissional, esportista, pensador, etc.) e foque um e sua respectiva
área da vida de cada vez.
6) Expectativas irreais de desempenho
Às vezes começamos algo esperando que tenhamos o
desempenho e o tempo de resposta de alguém maduro na coisa, e isso é
tremendamente irreal. Quando começamos algo, é natural ter algumas
dificuldades e baixo rendimento, em particular se não temos ninguém
para mostrar o “caminho das pedras”.
Ações possíveis: Reduzir expectativas de
desempenho ou não tê-las em absoluto. Projetar expectativas de melhor
desempenho mais ao futuro e, se não acontecer, repetir isso.
7) Não ter habilidade, só conhecimento
Nossas ações são resultado de uma combinação de
habilidades perceptivas, motoras, mentais e emocionais. Até para
processar conhecimento temos que ter habilidade, que é experiência
organizada para atingir resultados. Se você não consegue algo ou está
difícil, é porque falta habilidade, não capacidade, e qualquer
habilidade é treinável.
Ações possíveis: Não saber também é
conhecimento, buscar saber o que não sabe. Diante de novos
conhecimentos, buscar aplicá-los para algum objetivo.
8) Não estar presente
Temos modelos mentais de passado, presente e futuro,
mas é no presente que percebemos, que estamos conscientes que sentimos,
que as coisas estão acontecendo e que tomamos decisões. Este agora
mesmo em que você está lendo e interpretando essas manchas escuras à
sua frente. De vez em quando precisamos prestar atenção no passado,
nas memórias, e no futuro, nos planos e preocupações. O problema é
ficar tempo demais nesses lugares.
Ações possíveis: Meditar. Trazer
conscientemente a atenção para o presente: imagens, sensações, sons.
Praticar a auto-observação.
9) Não gerar opções
Ninguém nos ensina na escola que é melhor ter
opções do que não tê-las, e saímos pela vida achando que só tem
uma resposta certa, que só tem um caminho, quando na verdade pode haver
dezenas de respostas e caminhos.
Ações possíveis: Praticar visão de
multiplos aspectos. Praticar busca por opções e alternativas de ação
em situações variadas.
10) Projeção de conseqüências errada ou
distorcida
Diante de uma situação, uma das coisas que fazemos
é avaliá-la sob vários pontos de vista: há perigo? Requer ação?
Para isso, projetamos desdobramentos futuros da situação. Por exemplo,
diante de um cachorro desconhecido, você vai lembrar-se de várias
experiências com cachorros, seja a categoria ou o indivíduo, e tentar
avaliar o que aquele cachorro pode fazer.
Fazemos o mesmo com possivelmente todas as coisas
novas que nos aparecem. Se alguém lhe dá um conselho, você vai
verificar se aquele conselho pode ser bom para você. Se você errar
nessa verificação, vai perder uma oportunidade. Isto se você não for
do tipo que gosta de descobrir por si mesmo, porque nesse caso talvez
nem ouça o que lhe disseram.
Ações possíveis: Incorporar a possibilidade
de que não é perfeito e sua avaliação pode estar errada, o que vai
lhe conduzir a verificar melhor (faça uma avaliação também sobre se
isso vai aumentar ou diminuir seu valor). Avaliar com mais profundidade
o novo, ou pelo menos não tirar conclusões muito rápidas. Praticar
pensar que, por mais que um padrão tenha se repetido no passado, desta
vez pode ser diferente.
11) Foco em desprazer
Nossas motivações acabam passando por algum tipo de
prazer, mas tem gente que cria hábitos de focalizar, de enfatizar o que
é desagradável ou o que dói e acaba perdendo um pouco da habilidade
de sentir e desfrutar dos prazeres.
Ação possível: Um exercício simples, para
fazer uma ou duas vezes ao dia: lembre-se de uma experiência prazerosa
e saudável. Faça de conta que está vivendo o momento agora, vendo,
ouvindo e sentindo o que estava vendo, ouvindo e sentindo. Você pode
começar agora e sentir se é bom. Você pode também fazer o contrário
para experiências chatas: veja o filme como se fosse outra pessoa
(quase é, já que você mudou bastante desde então). Não suma
totalmente com a lembrança, já que ela pode ser útil como
inspiração para alguma coisa a evitar ou para lhe ensinar algo.
Lembre-se de voltar ao agora, as energias que você ativa estão sempre
no presente.
12) Guardar ressentimentos
De todos os obstáculos, o hábito de ficar guardando
ressentimentos talvez seja o mais nocivo ao crescimento, em dois
níveis.
No nível social, o ressentimento corta ou prejudica
os canais de comunicação entre os envolvidos. Sem comunicação
harmônica, não há cooperação, e sem cooperação muitos processos
sociais não funcionam.
No nível pessoal, há três aspectos
significativos. Primeiro, o ressentimento é uma emoção, e como emoção
envolve processos corporais. Ou seja, quem alimenta ressentimentos,
sente seus efeitos também no corpo. Efeitos corporais nocivos e
repetidos podem causar doenças a médio e longo prazos. Segundo, um
ressentimento que está sendo mantido ativo atrai a atenção da pessoa
para o passado e portanto diminui a atenção que ela dá aos seus
objetivos e ao presente, ou seja, diminui sua capacidade de realizar e
de sentir prazer, entre outras. Terceiro, o ressentimento tende a se
auto-recriar e se auto-manter, isto é, um ressentimento pode gerar
comportamentos que fazem com que hajam mais ressentimentos ou seja
intensificado o próprio.
Ações possíveis: A ação
neutralizadora do ressentimento chama-se perdão. Você já deve ter
notado sua importãncia. Cito uma mensagem que recebi:
"O perdão é uma necessidade
absoluta para a continuidade da existência humana", escreveu o
bispo africano Desmond Tutu na introdução do livro Exploring
Forgiveness (Explorando o Perdão), do psicólogo norte-americano
Robert Enright, diretor do Instituto Internacional do Perdão (www.forgiveness-institute.org),
da Universidade de Wisconsin-Madison, nos Estados Unidos."
Como toda realização humana, a
primeira coisa para se obter algo é querer. Querendo perdoar, seja por
motivos próprios ou de outra ordem, você ativa seus recursos na busca
de opções para concretizar o que quer. Por exemplo, se você está
querendo perdoar alguém e não sabe o que fazer, certamente se
interessou pelos dois links acima, porque eles podem conter
inspirações para o que você quer.
Uma vez que você queira perdoar
alguém ou algo que esse alguém fez, há várias alternativas. Em
essência, eu sinto o perdoar como um "deixar ir", uma
permissão para desprender-se e libertar-se de algo. Independentemente
do que eu acho, a melhor opção é o que você sabe fazer. Se já perdoou
antes, lembre-se de como fez e faça o mesmo agora. Se não, pode buscar
inspiração perguntando: "E se eu já tivesse perdoado, como
seria?". O "como" do perdão é relativamente
secundário, porque, uma vez que você queira e se dê o tempo adequado, vai
fazer o que sempre fazemos quando queremos algo verdadeiramente: buscar
e pedir e bater e buscar, até conseguir.