A situação era peculiar: do lado de fora de um parque de
diversões, eu olhava a montanha-russa: um carrinho estava subindo, lentamente.
Ele fez a curva ao final da subida e, ainda bem lentamente, foi se movendo em
direção à próxima curva. Ao fazer esta,
o carrinho despencou, as pessoas gritaram e foi então que senti o maior frio na
barriga. Estranhei, porque eu estava com os pés firmes no chão,
como é que podia estar reagindo ao que estava acontecendo a 50 metros com
outras pessoas?
Investigando meus processos mentais e minha percepção, achei uma possibilidade de
explicação para o fato, bolei uma solução, testei-a e na mesma hora passou o
efeito. Essa solução, que testei em outras situações semelhantes, é o que
descrevo aqui.
Fundamentos
Entender o que fiz requer saber duas coisas sobre o
funcionamento da nossa inteligência: os modelos mentais e a dinãmica da
atenção.
O primeiro fato é que não operamos diretamente
no mundo, e sim a partir das percepções que temos do mundo e o que fazemos com
essas percepções, que compõem os nossos modelos mentais. Sem modelos mentais
não poderíamos fazer nada; tente por exemplo tomar uma decisão qualquer só com
o que você percebe no presente. Mesmo se for saciar uma simples sede, você
precisa ter um modelo mental da sua casa ou do ambiente em que está e das
opções potáveis que existem. Quando não tem, sai procurando (talvez e somente
se a sede for suficientemente intensa!). Se é uma decisão de maior impacto,
como casar-se, você precisa ter um modelo mental atraente da futura
vida, ou certamente não se casará, a menos que obrigado, seja por si
mesmo ou por outras pessoas.
O outro aspecto da inteligência é a dinâmica da atenção e da
percepção. Agora o foco de sua atenção está neste escrito, mais especificamente
nesta palavra, agora nesta, agora nesta, e neste exato momento nesta... Ou
seja, sua atenção segue um fluxo no tempo. Esse fluxo pode ser mais ou menos
estruturado. Quando lê, por exemplo, sua atenção é conduzida pelo nosso padrão
de escrever de cima para baixo e da esquerda para a direita e é estruturada.
Quem está dirigindo um automóvel pode ter a atenção estruturada ou reativa. Se
o motorista segue um padrão de olhar para a frente e de vez em quando olhar os
retrovisores, seu fluxo de atenção é estruturado. Quando vê um pedestre em
situação perigosa, a tendência é concentrar a atenção nele e esquecê-lo assim
que não for mais importante, o que caracteriza direcionamento reativo da
atenção. Dirigir é uma combinação de direcionamento estruturado e reativo, como
você pode notar. Outra possibilidade para o direcionamento da atenção é a
escolha pura e simples. Por exemplo, você pode prestar atenção em qualquer
parte deste texto, a qualquer momento, nada lhe prende ou limita exceto sua
decisão de fazê-lo ou não.
A realidade via de regra proporciona muitos estímulos
visíveis, audíveis e sensíveis,
alguns dos quais podemos ignorar e outros não. A percepção de um ser
inteligente, portanto, deve se alternar um bocado no dia-a-dia. Se você ao ler
isto ouvir um barulho, sua atenção naturalmente vai se desviar
por um momento para interpretar o estímulo e avaliá-lo, porque pode ser uma
explosão ou outra ameaça ou simplesmente por curiosidade. O processamento dos estímulos
que nos chegam pode ser inconsciente, isto é,
nossa mente pode filtrar os estímulos que chegam ao consciente, só deixando chegar
a nós os importantes. Isso tem características de habilidade, é aprendida e
amadurecida, podendo ser treinada intencionalmente.
A característica dinâmica da atenção tem várias
implicações. Por exemplo, pessoas que reagem a qualquer estímulo em geral,
sem filtros de importância treinados, podem ter
dificuldades de concentração em ambientes ruidosos. Já fiz e já vi outras
pessoas saírem do foco e não perceberem: você está falando com ela e de
repente ela vê algo e faz um comentário estranho à conversa, como se
nada mais estivesse acontecendo. O nosso próprio nome é um
estímulo ao qual dificilmente deixamos de responder desviando a atenção;
também já vi um educador usar o nome da pessoa com freqüência ao
falar com ela, o que
suponho que seja uma forma de prender a atenção da pessoa.
O fluxo de atenção por si também é muito, muito importante, porque
há um bocado de coisas que acontecem no nível inconsciente, como por exemplo
sentir os pés no chão e perceber tensões no corpo, entre outras. Para verificar
isso, dê uma geral no seu corpo procurando por alguma parte tensa. Muitas
pessoas não incluem, por exemplo, a testa no seu fluxo de atenção, e nem
percebem que a franzem quando falam ou cantam. Esse fluxo da atenção é
extremamente rápido, e às vezes só notamos quando ele não acontece,
como quando estamos tão ligados em algo interessante que esquecemos
todo o resto.
Ambos, modelos mentais e atenção são processos, e por
isso não são ruins, bons nem algo entre esses extremos; são como ferramentas cuja
utilidade depende da forma como são usadas. Os dois trabalham juntos para
formar nossa percepção, como os pólos de um imâ, e isso tem várias
utilidades. É por meio deles que conseguimos, por exemplo, nos colocar no lugar
do outro e ver do ponto de vista dele, o que é chamado na PNL de posição
perceptiva. Note a combinação desses dois recursos ao assistirmos um bom
filme. “Entramos” no filme e passamos a viver dentro do modelo mental do filme.
Para conseguirmos isso, temos que deixar de prestar atenção no nosso próprio
corpo e no ambiente. Experimente assistir a um filme notando de vez em quando
onde está. Acredito que foi por isso que um filme do Arnold Schwarzenegger
fracassou, um que seu personagem saía de uma tela de cinema e ia para a
“realidade”: os espectadores eram lembrados de que estavam em um cinema,
“desligando” o modelo mental do filme.
O problema compreendido e solucionado
Foi com base nessas compreensões que eu pude entender como
conseguia sentir frio na barriga apenas olhando a montanha-russa, e o sucesso
da minha intervenção sustenta sua validade. Descrevendo passo a passo, eu
percebi que tinha feito o seguinte:
- Olhei a montanha-russa, com foco no carrinho.
- Quando ele começou a descida, eu me coloquei na posição
perceptiva de estar dentro do carrinho. Ao fazer isso, mesmo
que por um segundo, o fluxo de minha atenção deixou de passar pelo meu corpo e
qualquer outra coisa, e o modelo mental pareceu real naquele momento
- Reagi à "realidade" do meu cenário interno
do momento com uma reação semelhante à que teria se estivesse
realmente acontecendo.
Devo fazer isso muito bem, porque comecei a ver o que eu
veria, ouvir o que ouviria e sentir o que eu realmente sentiria se estivesse
lá, apenas com menor intensidade. Uma habilidade desenvolvida, creio eu,
daquelas que não se sabe quando foi aprendida.
Pensei então: se enquanto eu olho o carrinho eu mantiver
minha referência de realidade direcionando a atenção para o contato dos pés com
o chão, o frio não vai acontecer. Fiz isso e foi um sucesso imediato, não tive
mais qualquer sensação incômoda.
Posteriormente teste novamente essa estratégia em um lugar
alto, com o mesmo bom resultados. Para mim foi muito útil: imagine o que
senti, com essa habilidade antes inconsciente de entrar em uma posição
perceptiva, ao assistir um documentário de meia hora sobre escaladores
de prédios!
Caminhos
Caso você tenha medos e frios na barriga ou em outros
lugares e quiser experimentar o que fiz, há pelo menos dois caminhos. Um é
esperar acontecer e conscientemente direcionar a atenção de vez em quando para
as sensações nos pés ou alguma outra do momento presente. Outra é praticar essa estratégia em um contexto de
treinamento e transformá-la em habilidade ou até reflexo. Para isso basta você
simular situações variadas. Como você viu, com a nossa capacidade de simular
realidades alternativas, você pode fazer de conta que está no Everest e treinar
lá – sem sair de casa.
Eu só não recomendo você transformar isso em reflexo
condicionado, porque vai ter momentos em que você talvez queira ter a opção de
poder entrar em uma realidade paralela, como ao assistir um filme ou ler
um bom romance. Afinal, queremos não reduzir nossas possibilidades, e sim
expandi-las.