Feche os olhos por um momento e escute uma voz dizendo
dentro da sua mente: “Seus olhos são muito bonitos!” (ou alguma outra frase
legal que lhe venha). De onde veio o som da voz? Para que você ouça algo
externo, deve haver vibrações no ar, que entram pelo ouvido até chegar ao seu
cérebro. Assim, se não foi pelo ouvido, como você ouviu a voz?
Agora, pense um pouco no que gostaria de fazer no fim de
semana: um cinema? Namorar? Ih, tem que trabalhar ou estudar? Você certamente
viu cenas, imagens de você fazendo alguma coisa, mesmo que não tenha nada ainda
definido. De onde vieram as imagens? Para que você veja algo externo, seus
olhos devem receber luz, que seguem um complexo caminho até o córtex visual.
Assim, se não foi pelos olhos, como você viu as imagens?
Há atualmente uma discussão científica sobre outros sentidos
que teríamos; enquanto eles resolvem, vamos fazer algo prático e de aplicação
imediata, mostrando que você tem pelo menos mais dois sentidos. Nossa
demonstração é experiencial: acreditamos que, se podemos comprovar
algo pela experiência e, principalmente, perceber de forma sustentada a utilidade
desse algo, podemos dispensar aparelhos e medições.
Os sentidos a que nos referimos, e que conduzimos você a
usar no início, são a visão mental e a audição mental, que você
usa todo o tempo. Quando você tem saudade de alguém, enxerga mentalmente imagens da
pessoa; se tem medo de algo que não está próximo, o algo deve estar em uma
imagem ou cenário; quando planeja um passeio ou imagem, sua motivação começa em
saber para onde vai. Já aquela música chata que você ouviu boa parte do dia não
tocou lá fora, e as falas consigo mesmo já têm até nome: diálogo interno.
Se você achar muito óbvio o que for dito, melhor para você,
que já terá consciência do assunto; há muitas pessoas que não a tem, o que pode
constituir-se em origem de vários inconvenientes.
Nomes aos bois
É interessante ter nomes distintos para coisas distintas, para
facilitar e tornar mais precisa a comunicação e a compreensão, além de que nomes
também ajudam a estabilizar um aprendizado. No caso das imagens, usamos ver
para o sentido físico da visão, e enxergar para a visão mental. Assim,
você vê um carro passando lá fora, mas enxerga o que vai fazer no
fim de semana. "Lembrar" é enxergar algo do passado. Você pode notar que a expressão usada acima, “enxergar
mentalmente”, é portanto redundante.
Para sons usamos ouvir para sons físicos e escutar
para sons mentais. Você pode ouvir alguém à sua frente lhe dizendo “Parabéns!”,
mas se esse alguém não está próximo, você pode escutá-lo dizendo a mesma
coisa. Quem não escuta vozes críticas de vez em quando? E quem não se enxerga
no futuro realizando algum desejo ou sonho? Se você ouvir um
conselho e, no momento oportuno, escutá-lo, tem como segui-lo. Diante de um problema, você enxerga
opções para lidar com ele - ou não.
Uma outra palavra que complementa as outras duas visuais é olhar:
entendemos olhar como direcionar o sistema perceptivo, isto é, apontar a
atenção para uma direção. Quem olha ainda não viu nem enxergou.
Note que não estamos criando, aqui; estamos apenas
formalizando nomes para algo que é da experiência cotidiana de todas as
pessoas. Ou será que existe alguém que nunca escutou uma “vozinha
interior” (“interior” é redundante, se escutou é porque é interior) ou não enxergou
um objetivo?
Usos
Vamos mostrar agora um uso bem interessante de enxergar.
Suponha que você vai viajar para um local distante. Essencialmente, uma viagem
normal consiste de ida, estada e volta. O diagrama abaixo esquematiza essas
etapas em uma linha que representa o fluxo de tempo.
Viajar requer uma série de providências
e preparações, sendo uma delas arrumar as malas. Imagine que você está fazendo
as malas: que referências precisa para saber o que levar? Se você for para uma
praia, leva algumas coisas, se for a serviço, leva outras. Um evento como um casamento implica em levar pelo menos uma roupa social. Se o destino
for uma fazenda, outras coisas devem ser levadas. O fato é que, para preparar a bagagem, você
precisa olhar para o destino da sua viagem e enxergar as
coisas de que vai precisar lá (figura).
Confronte essas situações com outra em que você não sabe
para onde vai nem o que vai fazer lá: o que levar?
Há muitas outras situações em que você precisa enxergar a
si mesmo no destino. Se vai a uma festa, enxergar a festa lhe permite escolher
a roupa. Se vai ao cinema, a roupa pode ser quase qualquer, mas se o cinema em
questão costuma ficar frio pelo ar condicionado, você pode resolver levar um
paletó. Ao escolher o que vai comer em um restaurante, você pega um prato, se
enxerga comendo e pelo sabor que supõe que o prato
terá decide pegar ou não o prato. Se estiver namorando, terá vontade de aprofundar
ou não o relacionamento em função do futuro que enxerga com a pessoa. Se você
quer fazer uma boquinha e enxerga o que há na geladeira, pode escolher
sem precisar ir lá e ver o que tem. E você consegue caminhar em um ambiente
escuro se conseguir enxergá-lo, ou seja, se tiver imagens fiéis e estáveis do
que está à sua volta.
Em outro contexto, um engenheiro olha para um trecho de rio
e enxerga uma represa;de fato, enquanto ele não conseguir enxergá-la, não vai
conseguir fazer o projeto. Um designer de sites ou capas deve enxergar um
visual antes que possa trabalhar.
Por vezes ocorre de não enxergarmos um resultado desejado.
Podemos então fazer um esboço em papel ou programa e usá-lo como apoio e insumo
para a próxima passagem de concepção do resultado. Neste caso o conceito de
enxergar ajuda a vencer a paralisia criativa: você sabe que o que precisa
acontecer é você enxergar o resultado ou destino, e fica mais fácil descobrir
caminhos para chegar lá.
Enriquecimento
A palavra visão, além de ser usada para a visão
física, costuma também ser usada para representar um sonho ou projeto. Nesta
acepção, visões tipicamente são enxergadas. Quando várias pessoas trabalham
colaborativamente, é extremamente importante que tenham a mesma visão,
isto é, enxerguem o mesmo resultado. Por vezes ocorre que os envolvidos têm visões
diferentes – imagine operários de uma mesma obra enxergando casas diferentes – e as conseqüências
podem ser desastrosas. Assim, quando em colaboração, é importante que se
garanta uma mesma visão, o que normalmente é ou deveria ser feito pelo líder.
Interpretar a linguagem envolve enxergar. Por exemplo,
quando alguém lhe conta o que fez nas férias, você vai criando imagens mentais
que representam a sua interpretação do que o outro está falando: “Estive em uma
praia de areias muito brancas, águas verdíssimas e um pôr-do-sol de cair o
queixo...” A inversa é verdadeira: você também tem o poder de fazer outras
pessoas enxergarem coisas. Quando fala de um filme que viu, está
influenciando o que a outra pessoa enxerga do filme. Também quando diz a alguém
que acha que ela tem um futuro brilhante, está induzindo-a a enxergar esse
futuro brilhante, talvez uma imagem vazia mas luminosa, já que você não foi
específico.
Um aspecto da atenção parece ser que só podemos processar um
sentido de cada vez. Ou seja, se estamos ouvindo, não podemos escutar, e se
estamos vendo não enxergamos e vice-versa. Em outras palavras, se alguém está
com a atenção no espaço físico, não poderá captar informação do espaço mental.
Isso explicaria, por exemplo, porque alguém não nos escuta em certos momentos: estava “virado para
dentro”, escutando ou enxergando. Dito de outra forma, o outro não estava "ali",
sua atenção não estava usando sentidos físicos.
Explicação possível
Temos visão física porque temos olhos, temos audição física
porque temos ouvidos. E o que possibilita a visão e a audição mentais? Bem, a
resposta franca é: não sei, mas posso supor; formular e testar hipóteses é
um dos métodos preferidos dos cientistas. Vou propor aqui um ponto de partida
que, se não estiver totalmente correto, pelo menos serve como base para
evolução.
Considere que somos de fato seres estruturados, isto é,
temos corpo e mente. Dizer que “temos” já elimina a possibilidade de “sermos”.
Sendo algo diferente de corpo e mente, a percepção estará em nós, e não no
corpo ou na mente. Também fazemos uma distinção importante: assim como temos o
espaço físico, temos o espaço mental. O espaço físico é onde nosso corpo
está. O espaço mental é onde percebemos imagens e sons mentais e também está à
nossa volta, só que em outra dimensão de percepção, provavelmente virtual como as
imagens em um computador (comprovação: feche os olhos e pense em algo que está à
sua frente; você enxergou parte desse espaço). E, assim como temos um corpo físico, podemos ter um
corpo mental, que nos capacita a interagir com o espaço mental.
Assim, uma possível explicação para os sentidos mentais é que temos
a capacidade de perceber através do corpo físico ou através do
corpo mental. Se direcionarmos nossa percepção para
o espaço físico usando os sentidos físicos, vemos; se olharmos para o espaço mental
usando os sentidos mentais, enxergamos. O mesmo vale para outros sentidos.
Note que essa explicação não é necessária para usarmos os
processos em questão, mas talvez possam inspirar novas possibilidades.
Conclusão
Palavras em geral fazem
mais do que suportar a comunicação: elas induzem pensamentos e conduzem a
percepção. Dispor de conceitos como enxergar e escutar lhe abre caminhos e
facilita algo extremamente útil: a conscientização dos processos de
pensamento. Conscientizar-se do que se passa no seu espaço mental muitas
vezes é o bastante para resolver inúmeros problemas (veja por exemplo
Inteligência Emocional: O
futuro se abriu em possibilidades), e outras vezes permite obter as
informações necessárias para resolvê-los. Mas isso já é um outro capítulo.