Recentemente ouvi falar de um método de
aprendizagem acelerada utilizada na leitura, ou seja, a Fotoleitura.
Comprei o livro do criador da técnica Paul R. Scheele. Estou
fotolendo alguns livros. No entanto ainda não tenho controle sobre
as informações fotolidas, elas apenas acontecem (mesmo com a
"ativação"). Visitei o
amazon.com
para ler as opiniões dos compradores, a maioria não parece
satisfeita. Entretanto como o autor cita que leva algum tempo para
'aprender' a fotoler, pensei que seria interessante perguntar a
alguém com mais experiência sobre o assunto. Se for possível que
você dê a sua opinião sobre a técnica, ficarei imensamente grato.
Resposta
Eu já li, muito tempo atrás, o livro de
fotoleitura. E não me convenceu muito a técnica, por isso não a
experimentei. Só posso falar a partir de depoimentos de terceiros.
Acho que há muito poucos fotoleitores por aí, para termos um
testemunho de confiança... Verifiquei no Yahoo Groups Internacional
e no Nacional para saber se há um grupo de Photoreading ou de
fotoleitura. O melhor dentre eles parece ser o
www.learningstrategies.com/forum.html . Se consegue se virar em
inglês, talvez valha a pena dar uma olhadinha.
De qualquer maneira, é necessário uma certa
prática de auto-hipnose para ficar bom em resgatar as informações
absorvidas por fotoleitura. Na minha opinião o processo requer
abertura profunda do inconsciente, para podermos ter acesso à
memória fotográfica.
Uma boa parte do que é ensinado lá também é
ensinado em cursos de Aprendizagem Acelerada - a preparação para a
leitura, a leitura em vários níveis, a busca de palavras chaves. No
entanto, a parte de "fotoler" específicamente falando, na maior
parte das vezes ouvi relatos de frustração. Várias pessoas a
experimentam e não ficam satisfeitos com os resultados. Persistem
por algum tempo e depois desistem.
Então, atualmente só posso interpretar -
lembre-se, a partir de relatos de terceiros, eu mesmo não
experimentei - que a técnica não entrega o que promete. Talvez seja
possível, em algumas situações, mas não como regra geral.
Mas sobre este assunto eu tenho outras
considerações. Uma vez fiz um curso de Aprendizagem Acelerada com
Maurício Aguiar, um colega meu da formação de Master Practitioner em
PNL. Uma frase que ele falou ficou ecoando em minha mente: "Não leia
livros. Absorva conceitos. Não mensure livros pelo número de
páginas. Mensure pela fertilização de suas idéias".
E muito tempo atrás eu li, na introdução do livro
"O Meio é a Mensagem", de Marshal MacLuhan, que os editores de
livros costumam publicar um livro se este tem pelo menos 10% de
informação nova entre 90% de "cozinha" de informações retiradas de
outros livros. Isto significa que, em média, estamos lendo e relendo
cinco a nove vezes a mesma informação, se lemos dez livros sobre o
mesmo assunto...
Isso pode parecer ruim, mas tem seu lado bom. A
PNL nos diz que na maior parte das vezes precisamos repisar um fato
umas seis vezes para o colocarmos em nossa memória de longo prazo,
de onde dificilmente será esquecido. Se lemos dez livros de um
assunto, a probabilidade de estarmos realmente detentores dos dados
adequados sobre o assunto é muito grande. Contudo, também significa
que boa parte da leitura é desperdiçada.
E por isso sugiro a você que não se preocupe tanto
em "ler rápido" e sim em "ler bem". Eu de minha parte prefiro
trabalhar, ao invés de "photoreading", com "sculpt reading". Ler
bem pode ser até mais lento, pois é uma leitura reflexiva. Eu leio
muito - ocupo bastante do meu tempo com leitura - mas atualmente
leio com o computador do lado, construindo mapas mentais e quadros
sinópticos (sistemas de palavras-chaves) e fazendo anotações do que
entendo e crio a partir do que leio. Assim, pode ser que até eu
demore mais para ler um texto. Mas é uma leitura ativa e produtiva e
não algo passivo.
Se você não sabe como fazer mapas mentais, visite
o excelente site
www.mapasmentais.com.br , do Virgílio Vilela. E estude os
tutoriais. Há uma apostila ótima que pode ser baixada de graça, no
site.
Leio bem mais devagar, é certo, e tenho livros
não-lidos e semi-lidos em profusão, mas o que eu leio é meu, faz
parte de meus conceitos de vida, está bem digerido e assimilado. Se
estudarmos um livro procurando, classificando e fazendo mapas
mentais de tudo o que é novo e faz sentido, o próximo poderemos ler
ainda mais rápido, e cada vez mais rápido... E sem a técnica de
fotoleitura.
E o principal: não precisaremos de reler todo o
livro, se for necessário uma segunda vista. Nossas fichas de mapas
mentais e nossa estruturação de idéias servirão como uma perfeita
sinopse, facilitando que encontremos os 10% criativos que só estão
naquele livro.
Suponho que esta técnica seja dez vezes mais lenta
do que a fotoleitura para ler um livro pela primeira vez e cerca de
três vezes mais lenta do que a leitura normal. Mas, no entanto, para
ficarmos realmente com o entendimento de um livro-texto (não me
refiro a um romance, fique bem entendido) costuma ser necessário que
nós o releiamos umas cinco vezes. E a fotoleitura seria mais rápido,
mas quanto tempo precisamos até termos a confiança nela?
Posso estar errado, mas por enquanto prefiro ser
um "sculpt reader". Pois a leitura é um processo de "garimpagem" de
idéias. E toda boa idéia exige um tempo de "ruminação", de
comparação inconsciente com outras percepções, valores e crenças que
já fazem parte de nosso mundo mental.
Feito isso, vamos ao que faço. Vou descrever minha
técnica com rigor. Esta técnica é adaptada dos princípios da
Aprendizagem Acelerada, um curso que fiz em 1994 com Maurício Aguiar
(que também publicou um livro sobre este assunto, junto com o
professor Rousseau, um conhecido consultor de treinamento
empresarial). Eu já usava técnicas similares antes, aprendidas em
livros, mas o curso apurou meu sistema.
Começo dando uma boa olhada no livro, na orelha,
na sinopse da contra-capa, no índice e leio cuidadosamente os nomes
dos capítulos. Já observei que 90% dos leitores têm preguiça de
fazer isso, ou o fazem descuidadamente, e começam a ler o livro para
ver se este o "captura". Isto é, ao meu ver, uma forma passiva de
ler, pois o transforma em refém do livro... Se este for construido
para instigá-lo emocionalmente, a gente o lê de uma assentada. Se
for mais cerebral, mais frio, a gente pode até parar para ler depois
e, por alguma razão, é "capturado" por outro livro.
Eu me pergunto também qual é o propósito que tenho
ao ler este livro. Se é um propósito meramente informativo, se viso
enriquecer uma idéia que já tenho ou se estou motivado a acrescentar
uma nova compreensão de vida, um novo ponto de vista. Isto é, se
estou preparado para ser confrontado, para a mudança. Pode parecer
bobagem fazer isso, mas considero extremamente importante, pois nos
prepara para sermos senhores do livro, não seus servos.
A partir disto eu posso começar a fazer uma
leitura pró-ativa do livro. Eu é que escolho o que quero ler, em que
quero me aprofundar e o que quero reter como recordação e aceitar
como ponto de vista. Me permito discordar, desta maneira, dos
autores, e fazer o meu próprio processo de leitura, seja na
diagonal, do início para o final ou do final para o início.
Maurício Aguiar diz que devemos mudar até a forma
como falamos a respeito de um livro-texto. Não devemos dizer que nós
"já lemos" o livro. Devemos dizer que nós "já processamos" o livro.
E que, muitas vezes, ele pode estar "em processo" por anos, enquanto
"cozinhamos" vários livros ao mesmo tempo.
Começo procurando as idéias-chave. Folheio o livro
em primeiro lugar, em uma espécie de "sobrevôo". Identifico as
passagens mais interessantes, leio algumas anedotas e histórias,
observo os diagramas e quadros sinópticos.
Findo isto, eu começo a ler o livro, com um
bloquinho ou o computador ao lado. Começo a anotar as
palavras-chaves do livro e, de forma bem sintética, a minha opinião
sobre algum conceito, demarcando com um colchete ou balão e
encimando com a palavra "eu". Isto para mostrar que eu tenho um
ponto de vista diferente.
Antigamente eu marcava o livro com um lápis
(jamais em caneta ou marca-texto, é um desrespeito com o livro).
Hoje considero que esta forma é desorganizada demais, pois nos
obriga a catar o livro inteiro por trechos grifados. E, quando
grifamos desta maneira, não prestamos tanta atenção no que estamos
pensando e, depois, o esquecemos. Quando transcrevemos o texto de
forma sintética, buscando transformar em uma ou duas
palavras-chaves, o esforço neural é muito maior, e assim o conceito
fica melhor marcado no cérebro.
Feito isto em uma estrutura lógica do livro - que
às vezes pode ser um capítulo, às vezes pode ser uma estrutura
dividida em dois ou três capítulos - eu paro, volto ao meu bloco ou
arquivo texto no computador e busco criar um mapa mental daquela
estrutura - mas não me preocupo em englobar todo o livro, e sim
apenas a idéia que eu entendi, a que fixei, que é a minha forma de
ver e compreender.
Isto é, faço um mapa mental de *minhas* idéias
sobre o livro, não do livro. Não vou descrever detalhes de como
fazer um mapa mental. Veja no site do Virgílio.
Completada esta etapa, das duas uma: se eu *sinto*
que minha opinião parece bem diferente do livro, releio os capítulos
para identificar os pontos de discordância e verificar qualquer
falha de compreensão minha. Mas, na maioria das vezes, eu prefiro
seguir adiante, pois, talvez, em uma parte posterior, o autor poderá
se repetir de outra maneira e assim enriquecer a sua idéia. Mas aí
eu já terei uma forma de pensar, pela qual avaliar o que li.
Detalhe: não faço quadros sinópticos e mapas
mentais de todo e qualquer detalhezinho do livro. E não recomendo
fazer os mapas mentais detalhados, enquanto se lê. Ao contrário,
prefiro e recomendo que se leia o livro de uma forma global,
definindo em forma de rascunho rápido mapas mentais e quadros
sinópticos apenas daquilo que é interessante ou se discorda, e
portanto se deseja esclarecer as idéias, através de um mapa mental.
No final, o livro "processado", posso (ou não)
parar e fazer um mapa mental do livro todo. Contudo, nem todo livro
é recomendável ou possível de se fazer isso, pois os livros não são
tão bem estruturados assim. É melhor fazer mapas mentais apenas das
partes interessantes, mantendo uma ligação fraca entre os mapas,
pela referência de assunto. O tempo perdido em confeccionar o mapa
mental completo e perfeito é desgastante demais. No geral, não paro
para fazer o mapa mental do livro integral, me contento em mapear
idéias coesas.
Isto é, prefiro ler com cuidado, refletindo bem no
que estou lendo, fazendo mapas mentais e tecendo elucubrações sobre
o que leio... Paro toda hora e converso mentalmente comigo, fazendo
diagramas em um papel à parte sobre minhas idéias, descobrindo se eu
concordo ou não, se entendo ou não o que está proposto no livro. Me
imagino (visualizo) explicando isso para alguém. Ficaria com
dúvidas? Verifico. Só vou adiante quando estou satisfeito com as
minhas idéias próprias sobre o livro, não sobre as idéias do livro.
Se estou cansado, paro, pego outro livro, não me preocupo em ler de
fio a pavio.
Se é um livro de ficção, puro lazer, óbviamente
não sigo estes passos de forma tão rigorosa. Em alguns livros este
processo todo pode demorar três, quatro dias. Em outros pode demorar
meses. Ou anos. E daí? Isso não importa. Não vivo de citar livros, e
sim de manifestar idéias, em minha vida e em minha interação com
meus parentes, amigos, conhecidos e clientes. Algumas destas
leituras frutificam em artigos, outras em idéias próprias. Não é
isso o que se quer? O pensar é a consequência da leitura, não o
acúmulo desta.
Agora, um adendo: se uma pessoa está estudando
para um concurso, ou vestibular, ela quer enfocar mais a memória.
Talvez ela precise fazer mapas mentais mais detalhados e coesos. Mas
é um caso específico. E, mesmo assim, os concursos e vestibulares
hoje em dia estão privilegiando mais a compreensão e as idéias
próprias do estudante, não tanto o "decoreba" puro.
Esperar aprender rápido é uma distorção dos tempos
modernos - todos preferem livros condensados, extratos etc. Então,
porque a maioria das pessoas não conseguem aprender uma nova língua
apenas lendo dicionários? É necessária uma exposição gradual a
idéias, para que formemos nossos pontos de vista. E quem quer ler
rápido também absorve sem análise crítica o que está sendo lido -
pode acabar acreditando em qualquer coisa.
Experimente uma vez pesquisar na revista Seleções
se existe um livro condensado que você queira ler. Mas não leia
ainda o texto condensado. Leia o livro original e depois leia o
condensado. E faça uma comparação do que sente, a partir dos dois.
Faça a experiência ao contrário, também: ler o condensado primeiro e
depois o em formato normal. Se a qualidade do texto for boa e o
autor não for daqueles que "enche linguiça", perceberá que, mesmo
por melhor que seja a condensação, perderá muito do impacto
emocional do texto completo.
E hoje em dia o jovem prefere ver um filme ou um
documentário, ao invés de ler um livro. Não nego o poder das
imagens, e a beleza de um bom filme ou documentário, e retiro muitas
idéias criativas do que vejo neles. Recomendo, especialmente, os
documentários sobre o mundo natural, no estilo do National
Geographic. Aprende-se muita coisa interessante sobre o
comportamento, que podemos tirar ilações para o mundo dos homens...
No entanto, as idéias em um filme já estão prontas, e direcionadas.
É bem mais difícil sair da trilha das idéias apresentadas na forma
de imagens, e gerar idéias novas. E, afinal, nós queremos apenas
aprender as idéias dos outros ou aprender a gerar nossas próprias
idéias?