A capacidade, sua utilidade e oportunidades
de melhoria
Todos nós certamente já fizemos e vamos fazer algum
tipo de crítica, seja construtiva ou destrutiva, seja a outros ou a
nós mesmos: criticamos um trabalho, criticamos comportamentos e formas
de expressão, criticamos atitudes, criticamos texto de e-mails,
criticamos um site ou parte do seu conteúdo. Mas você certamente já
foi criticado ou criticou injustamente, seja por si mesmo ou por alguém
que não entendia todo o contexto do que estava acontecendo ou que tinha
uma visão muito simplificada da situação.
Nesta matéria vamos ver que a crítica na verdade é
uma habilidade importante e também alguns
pecados que podemos cometer quando no papel de autocríticos e que podem
descaracterizar esse recurso e, ao invés de melhorar, piorar as coisas.
O papel da crítica
Você certamente já escreveu um e-mail e, antes de
enviá-lo, deu uma lida e fez algumas correções. Também já fez algum
trabalho ou relatório e releu-o várias vezes, fazendo correções e
melhorias. Se você observar com atenção, vai notar que dificilmente
fazemos algo perfeito de primeira; o padrão mais comum é revisarmos
pelo menos uma vez nossos produtos. O nível desejado de qualidade não
é obtido por agirmos com perfeição, e sim por uma busca e correção
de imperfeições segundo alguns critérios de qualidade. Às vezes
fazemos isso até em tempo real, como quando falamos algo, percebemos um
erro e refazemos a frase antes mesmo de completá-la.
O propósito de criticar, portanto, é melhorar a
qualidade. Muitos periódicos, como revistas e jornais, mantém
revisores para achar erros de digitação e gramática. Outro tipo de
profissional, o copidesque, não só revisa como faz sugestões ao autor
de uma matéria. Há empresas que economizam nesta área e o resultado
logo aparece, na forma de erros variados em publicações, capas,
embalagens, sites e outras mídias. Criticar é tão importante que o Crítico era um dos papéis-chave do
ciclo criativo de Walt Disney,
que ainda tinha o Sonhador, que idealizava o que seria feito, e o
Realista, que concebia as ações para a concretização dos sonhos.
Disney, no papel do Crítico, olhava os planos a uma certa distância e
fazia perguntas provocadoras ao Sonhador e ao Realista, tudo com a
intenção de melhorar a qualidade do plano.
Como qualquer habilidade, a crítica pode ser mais ou
menos bem usada. Veja a seguir possíveis mal usos dessa habilidade quando
aplicada a nós mesmos e a outros.
Pecado 1: Criticar o passado com os olhos atuais
Um belo dia, você se lembra de um certo acontecimento
e já vai pensando: "Ih, que bobeira" ou "Como fui
burro", podendo até sentir alguma emoção de uma maneira
limitante, talvez não se conformando em ter agido como agiu. O pecado
aqui é criticar-se em um momento anterior com os critérios e a
experiência que tem hoje. A maneira como se comportou no passado
espelhava sua maturidade, conhecimentos, objetivos e capacidade de então.
Criticar-se no passado com os olhos de hoje, depois de viver, amadurecer
e se capacitar mais, é semelhante a julgar uma criança e ter expectativas
dela segundo os mesmos critérios aplicados a um adulto.
Pecado 2: Criticar o futuro com os olhos atuais
José Maria foi convidado para dar aulas, mas não aceitou,
porque achou que "não ia dar conta". Talvez ele estivesse
certo, talvez realmente fosse um fracasso como professor, se fosse
dar aulas amanhã. Ocorre que o que um professor diz e faz em sala
não é feito na véspera, é resultado de anos de experiência e, em
particular, de planejamento, execução, crítica e aperfeiçoamento na
próxima vez. O pecado de José Maria foi criticar-se fazendo algo no
futuro à luz de sua capacidade atual, sem incluir a
preparação que, como fazer as malas para uma viagem, está por trás
da grande maioria das atividades profissionais: planejamento, ensaio,
testes, pesquisas, muito aprendizado envolvendo novas habilidades. Um
professor, assim como um ator e outros profissionais, tipicamente só improvisa
depois de muita
experiência. Na minha opinião, José só não pecou se ele não tinha
experiência significativa com o conteúdo das aulas, aspecto para mim
crítico do magistério.
Fui consultado uma vez sobre algo que acontecia com
uma pessoa: quando ele pensava em alguma melhoria profissional, tinha
pensamentos "negativos", as coisas dando errado. Sem informações muito específicas,
pareceu-me que um dos aspectos do que estava
acontecendo era que a sua avaliação crítica de si mesmo em uma nova
função estava lhe mostrando que, se não se preparasse, a
chance era mesmo de fracasso. As projeções de futuro que lhe
ocorriam forneciam as pistas para o que ele deveria fazer para conseguir
o que pretendia.
Teste-se: você pularia de pára-quedas? Se
"arrepiou", pense agora a mesma coisa, depois de fazer um
treinamento com quem sabe, muita preparação física, ensaios mentais
para lidar com situações de emergência e alguma outra coisa que
inventar. Você pode até continuar, se é o seu caso, com medo de
morrer estatelado e decidir não pular, mas não o fará por não se
considerar capaz.
Pecado 3: Criticar por um só aspecto
Quando alguém afirma "Sou incompetente",
"Estou sendo incompetente", "Fui incompetente" ou algo assim, está fazendo uma crítica por um
ponto de vista apenas, o de que não foi capaz de perceber ou fazer
algo. Fazer isso é uma sonora e estupenda injustiça consigo mesmo, já
que generaliza para o todo algo que ocorreu em uma situação apenas.
Fazendo isso, a pessoa está ignorando todas as coisas inteligentes que
já fez e disse em toda a vida, incluindo o que fez de bom ou certo na
situação e até a construção da própria
frase, que requer conhecimentos de palavras, significados e sintaxe do
idioma. Também está ignorando possíveis aprendizados com a
situação, ou seja, que ali pode estar justamente a oportunidade de
melhoria que vai permitir que a situação não se repita no futuro.
Também está considerando somente a própria opinião e ignorando a de
outros envolvidos: quem viu ou ouviu pode não ter dado a mínima. E também
pode estar desconsiderando que haverá decorrências futuras boas da
situação, embora no momento seguinte possa não ter havido nenhuma.
Na verdade, podem existir dezenas ou milhares de aspectos em uma
situação, que resultam em muitas descrições possíveis. Ao invés de
"Fui incompetente", por exemplo, a descrição poderia ser
"Não consegui os resultados que pretendia", abrindo espaço
para, ao invés de um julgamento, adotar uma atitude de se ajustar e fazer
algo diferente. Outra visão da mesma situação é a de que a pessoa
que se criticou pôde reconhecer que fez algo que não foi apropriado, e
ser capaz de reconhecer isso significa que a percepção do que seria
mais inteligente está lá, só não foi traduzida de forma apropriada
em ações (e, com a experiência do que ocorreu, ficou mais fácil agir efetivamente). Mais um aspecto? Muitas vezes a única conseqüência
desagradável de uma situação é provocada por nós mesmos, na forma
de uma reação emocional associada à própria autocrítica.
Pecado 4: Criticar a autocrítica
Bem, aí você veio lendo até aqui e pode ser que
tenha pensado que não está sendo um bom autocrítico, ou talvez você
costume dizer para si mesmo e para outros que é muito crítico, e
talvez não considere isso algo muito bom. Nesse caso, você está
criticando a sua autocrítica, e pode aproveitar para melhorá-la,
lembrando que a crítica é como uma ferramenta mental, e ferramentas
não são a princípio boas nem ruins, depende de como são usadas. Se
for para criticar a autocrítica, critique a maneira como vem usando
essa habilidade e use isso para fazer melhorias.
Pecado 5: Não fazer autocríticas
Todos já vimos pessoas que não costumam se
autocriticar; são como são, "assim mesmo", e não têm
oportunidades de melhoria. Talvez nós mesmos já tenhamos agido assim
pelo menos por épocas ou momentos. O sétimo pecado, jamais fazer
autocríticas, conduz à estagnação
evolutiva, ao não aprendizado, ao não aperfeiçoamento. Se você não é perfeito, não está
"pronto", então já deve ter percebido que autocríticas
são criadoras de oportunidades, e por isso merecem atenção especial,
seja no sentido de seu aprofundamento e "alargamento",
validação de sua procedência e escolha de como e para que será
usada.
Pecado 6: Não ter hora para criticar
A autocrítica muitas vezes surge inoportunamente,
prejudicando nossa espontaneidade e o fluir das ações. Quando estamos
elaborando algo ou criando, como ao redigir uma carta, relatório ou
outro tipo de texto, ficar criticando a cada passo e querer ou esperar
que cada passo seja perfeito pode ser um bloqueio. Na verdade, os
critérios de qualidade, nesse contexto, devem ser aplicados aos nossos
produtos, e não a nós. Assim, até que o produto vá para o seu
destino e saia do nosso controle, seja o destinatário, cliente ou
usuário, podemos ter toda a liberdade que quisermos sem
conseqüências, exceto alguma boa idéia que um "erro" por
vezes proporciona. Einstein levou uns 20 anos para publicar suas teorias
maiores, a Relatividade Geral e a Restrita; você acha que ele acertou
todas as conclusões nesse período? E ele é considerado gênio.
Pessoalmente, o melhor a
fazer pode ser definir o "Momento de autocrítica" ou ponto de
controle, no qual
que você se dedica exclusivamente à intenção de aplicar a habilidade
de crítica para identificar possibilidades de melhoria e o que vai
fazer com elas. Nesses momentos você se torna O Crítico, aquele
sujeitinho fazedor de perguntas, às vezes chato e provocador, mas com a
missão fundamental de descobrir os vários aspectos relevantes da
situação, reconhecer o que está bom, detectar imperfeições ou
riscos e sugerir melhorias. Seja uma vez por dia ou por semana, gradativamente você
vai se disciplinando e se beneficiando duplamente: fluindo pela vida com
menos interrupções e crescendo com o apoio de uma autocrítica útil.
Pecado 7: Criticar-se sem propósito de melhoria
Se o papel da crítica é melhorar a qualidade, fazer
autocríticas sem a intenção de usá-las para fazer melhorias é pura
perda de tempo. Ter uma intenção convicta de aperfeiçoamento é algo
tão poderoso que, mesmo quando alguém recebe uma crítica pretensamente destrutiva, ela
é transformada em
construtiva pela receptividade e pela disposição de aproveitar as
oportunidades de aperfeiçoamento expostas. Quem tem tais intenções
sabe que, no fundo, não faz muita diferença de quem vem ou como vem ou
ainda quando vem uma crítica; o importante mesmo é descobrir - para
poder aproveitar - as oportunidades.